Quem foi criança nos anos 1980, inevitavelmente guarda no fundo do coração e da memória várias lembranças marcantes: desenhos animados, filmes, brinquedos, colecionáveis. No meu caso, há algum tempo recorri ao Pinterest para matar a saudade do álbum de figurinhas Bem-Me-Quer, com ilustrações da Sarah Kay.
Sarah Kay na verdade é o nome artístico da ilustradora australiana Vivien Kubbos, hoje com 82 anos de idade. No início dos anos 1970, ela atuava como ilustradora freelancer e conciliava a carreira com a vida familiar quando criou as primeiras artes que a tornariam mundialmente famosa. Seus desenhos inicialmente ilustravam cartões comemorativos e logo conquistaram o público pelo estilo detalhado e pelo universo encantador de meninas e meninos vestidos com roupas românticas, chapéus, flores, animaizinhos e outros elementos da vida no campo.
A inspiração para esse universo tinha a ver com suas próprias lembranças de infância e da natureza que a cercava na fazenda de seus avós. Em um período particularmente difícil, quando sua filha mais nova ficou gravemente doente, a ilustradora encontrou no desenho a sublimação e criou imagens de crianças felizes em ambientes pacíficos e bucólicos: era sua forma de enfrentar um momento doloroso sem se prostar, sem se abalar, mantendo-se firme e inteira para servir a quem dependia dela.
As imagens pastoris de Sarah Kay me remetem um pouco ao Arcadismo, movimento literário brasileiro que surgiu no século 18, em um período marcado por tensões políticas e perseguições relacionadas à Inconfidência Mineira. Diante de uma realidade de censura e repressão, os árcades recorreram à literatura como forma de evasão, imaginando um mundo ideal, pastoril e bucólico, uma harmonia idealizada distante dos problemas do cotidiano.
Como eu entendo esse sentimento! Ao me deparar com nossa realidade em que, por alinhamento ideológico, muitos esquecem ou abandonam propositalmente princípios básicos de coerência, humanidade, respeito ao próximo e ética, só me resta a evasão. Tentar argumentar, contrapor, criticar construtivamente tornou-se inútil. Um exemplo disso é testemunhar quem supostamente prega tolerância, diálogo, respeito e humanismo exaltando e celebrando certos indivíduos que documental e publicamente pregam intolerância, ódio, violência e até assassinato de oponentes. Seriam coniventes?
Como gente dita esclarecida pode relevar a pura maldade que um ser abjeto disfarça para os seus sob uma grossa camada de histrionismo, afirmando que se trata de um “personagem”? Não entendo. Me resta desviar o olhar para as ilustrações da Sarah Kay, me conectar com algo mais elevado, mais bonito. Não é covardia, é modo de sobrevivência em 2026: vou me refugiar no meu arcadismo particular.



