Com o surgimento da internet, passamos a ter acesso não só às notícias internacionais, mas também às questões mais triviais e aos costumes mais esquisitos de outros povos e de outras culturas. Outro dia, apareceu o vídeo de um casamento na China: a noiva prestes a entrar, as portas da igreja se abrindo, e junto à entrada as madrinhas de vestido longo e a postos como se fossem guardas.
Só fui entender a postura vigilante das madrinhas quando reparei no vídeo em uma senhora de meia-idade, também perto da porta, com o celular em mãos, tentando se levantar de uma cadeira. Parecia que a senhora queria invadir o corredor da igreja, mas foi imediatamente contida por uma das “guardas-madrinhas”.
A legenda do vídeo dizia algo como “Dá um frio na espinha saber o que essa mulher iria fazer com a noiva”. Até achei que queria agredir a moça, mas não: lendo os comentários, entendi que há uma tradição na China de roubar para si a boa fortuna e a felicidade da noiva ao atravessar na frente da moça antes que ela chegue ao altar. Segundo tal superstição, esse ato – a meu ver, totalmente vulgar e grosseiro – traria longevidade às mulheres de meia-idade.
Esse talvez seja um exemplo de como é difícil lidar com o conceito de alteridade. Muitas vezes, não consigo me colocar no lugar do outro, como neste caso da senhora chinesa que tentou arruinar o momento único da noiva por causa de uma superstição tola. A primeira coisa em que penso é: “O que se passa na cabeça dessa criatura?”. Mas percebo que faço o questionamento errado: nem sempre tudo se resume ao que passa na cabeça, mas ao que está no coração do outro. E as coisas do coração, como não poderiam deixar de ser, são muito mais complexas do que o raciocínio lógico, o bom senso, dados ou informações podem dar conta.
O exercício da alteridade reside nisto: buscar baixar a guarda da razão e tentar ler o mundo com mais escuta, mais solidariedade, mais empatia. Para São Tomás de Aquino, a alteridade é fundamentalmente parte da ordem da criação: Deus criou seres distintos porque nenhuma criatura, isoladamente, pode refletir toda a sua perfeição. Assim, a diferença entre as pessoas tem um valor positivo intrínseco e se torna a base da vida em comunidade, orientada pelo bem comum e pela caridade, que consiste em “querer o bem do outro”, da conhecida expressão do latim velle bonum alteri.
E como é difícil se colocar no lugar do outro e sair de um posicionamento tóxico e egoísta que te aprisiona numa visão de mundo completamente ensimesmada. Ando fazendo um esforço árduo, consciente e necessário de me colocar no lugar do outro e tentar compreender o que se passa com ele. Mas neste exercício, é inegável o quanto estou aprendendo, ironicamente, mais sobre mim mesma.




