Há algum tempo circula uma teoria de que o cidadão comum mal-informado e sem espírito crítico só se dá conta de que tem coisa errada em seu país ou comunidade pelo declínio gradual de certos elementos da vida em sociedade. Dizem que foi o que aconteceu durante a queda do Império Romano: o cidadão romano que se contentava com pão e circo não fazia ideia de que a grande Roma só estava vivendo de glórias do passado e de certa propaganda ilusória.
Historiadores renomados como Bryan Ward-Perkins (no livro de 2005 The Fall of Rome and the End of Civilization – numa tradução livre A Queda de Roma e o Fim da Civilização) argumentam que a evidência arqueológica do colapso não está em batalhas ou decretos, mas em coisas banais: estradas e aquedutos que deixaram de ser reparados, a qualidade da cerâmica que caiu drasticamente (as peças se tornaram mais grosseiras, porque a manufatura especializada distante se tornou muito cara assim como os custos do transporte), as moedas que perdiam valor e pureza metálica (desvalorização e inflação constantes), os prédios públicos que deixaram de ser construídos ou restaurados.
Na prática, o cidadão romano percebia gradualmente que os impostos subiam enquanto os serviços públicos pioravam, além da insegurança crescente nas estradas, com menos patrulhamento e mais violência e banditismo. O fluxo migratório constante abriu espaço para a presença de grupos “bárbaros” cada vez mais visível nas fronteiras desprotegidas e depois no interior. Os invasores violentos e sem civilidade (de civitas, mesmo, um conceito desconhecido para godos, hunos, vândalos, jutos e saxões) pouco a pouco foram mudando os costumes, as leis e a rotina das cidades do antes todo poderoso Império Romano. Outro detalhe: autoridades e líderes locais (bispos, grandes proprietários de terra e comerciantes) passaram a assumir funções que antes eram do Estado, num claro sinal de que o governo central estava se retraindo, por falta de recursos ou pura incompetência de administrar o caos em meio ao declínio quando o dinheiro acabou.
O Brasil nunca foi e jamais será um Império Romano, mas as lições do passado são sempre a chave para entendermos o presente. Há cidadãos que ainda não se deram conta do gradual declínio do Estado, mas aposto que há quem já tenha notado a alta dos preços no supermercado, o aumento da violência, a normalização bizarra de algo como carros blindados na maior cidade do país... A situação é tão preocupante que há regiões inteiras onde o Estado nem mais entra e são “administradas” por algum tipo de poder paralelo: em vez dos bispos e donos de terras de Roma, temos o crime organizado controlando até provedor de internet. O declínio foi e continua gradual até chegar ao ponto de não-retorno.


