Há duas décadas, quando ainda lecionava em colégio, na hora do recreio costumava dividir a leitura do jornal com minha colega, uma experiente professora de Geografia. Um dia, comentávamos o caso de um marido que havia assassinado a esposa porque ele não aceitava o fim do casamento. Nunca esqueci o que a Elaine me disse: “Este é um crime que reflete a tragédia dos horizontes estreitos de um homem”.
O assassino acabou com a vida da mulher e, consequentemente, com a dos filhos que ficaram órfãos de mãe e pai, porque o pai também morreu ao se tornar um monstro sanguinário. Na visão estreita e limitada que tinha de sua própria vida, desconsiderou tudo o que havia de bom — as crianças, seu trabalho, seu patrimônio, seus familiares e amigos, sua saúde — e cometeu o crime. Tivesse uma visão mais ampla do futuro e das consequências de seus atos, teria apenas seguido em frente após o fim do relacionamento, como milhares de pessoas fazem todos os dias.
Naquela época, não se usava a atual nomenclatura “feminicídio”, ainda se falava em “crime passional”. A substituição de um termo por outro na imprensa e nos tribunais foi gradativa. O termo femicide apareceu pela primeira vez em 1801, na obra A Satirical View of London, com o significado de “assassinato de uma mulher”. Em 1976, a socióloga sul-africana Diana E. H. Russell resgatou e redefiniu o conceito descrevendo-o como “O assassinato de mulheres por homens pelo fato de elas serem mulheres”. Em 1992, Russell e Jill Radford consolidaram essa definição no livro Femicide: The Politics of Woman Killing. A partir de então, o termo foi traduzido para diversos idiomas e passou a designar um assassinato motivado por desigualdade de gênero, misoginia, controle ou dominação.
Eu particularmente tenho ressalvas com o termo “feminicídio” porque me parece que tira um tanto de atenção da verdadeira causa dos crimes: as mulheres não estão morrendo só porque são mulheres, mas porque, antes de mais nada, o Estado falha em manter a sociedade como um todo em segurança. E há dados que comprovam isso: na terça-feira (14), em matéria publicada no Pioneiro, ficamos sabendo que, dos 41 casos de feminicídio que aconteceram aqui no nosso RS desde o início do ano, 10 agressores tinham antecedentes por violência doméstica e 22 tinham antecedentes criminais diversos. O que esses 32 caras estavam fazendo soltos? Até quando vamos deixar de encarar a impunidade como a causa principal da violência contra mulheres, contra crianças, contra seres humanos independentemente de gênero, raça e classe social?
Apenas sete assassinos, de 41 crimes, não tinham passagem pela polícia. Isso mostra que não são só homens covardes que têm horizontes estreitos: a Justiça parece ter uma visão ainda mais limitada e estreita da realidade.

