Sou uma profunda amante da nossa língua portuguesa. Poucos idiomas reúnem tamanha beleza, musicalidade, amplitude e variedade de vocabulário como a nossa língua materna. Ela nos permite melhor expressão e mais nuances para relatarmos o que estamos sentindo, descrevendo, narrando, dissertando ou explicando.
Uma das frustrações de quem estuda inglês, por exemplo, é ter que se conformar que seja um idioma tão limitado e menos expressivo em comparação ao português. Geralmente, no inglês há um único termo para se referir à determinada coisa, enquanto no português podemos contar com um leque de opções. Se o vocabulário do inglês inteirinho cabe dentro de um furgão pequeno tipo uma Fiorino, o vocabulário do português precisa de quatro imensas carretas bitrem, no mínimo.
Com essa quantidade de palavras, de combinações e de colocações, fora os regionalismos e as peculiaridades do português aqui no Brasil, em Portugal, na África e na Ásia, nosso idioma está numa posição privilegiada, embora não pareça. Por muito tempo, e por sermos o único país que fala português na América do Sul, o espanhol nos pareceu mais popular e mais importante na economia e na geopolítica. Contudo, há dados interessantíssimos que mostram que o português, demograficamente falando, está prestes a se consolidar como uma língua verdadeiramente global.
Primeiramente, o português é hoje o idioma mais falado no Hemisfério Sul. Além disso, é a língua oficial de ao menos um país nas Américas (Brasil), na Europa (Portugal), na África (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Comores) e na Ásia (Macau, Timor-Leste e Goa, um estado autônomo na Índia). São cerca de 260 a 280 milhões de falantes nativos, estudando, produzindo, consumindo e se comunicando por meio da língua que o grande império português espalhou pelo mundo na época das Grandes Navegações.
Diversos linguistas e especialistas têm feito projeções que indicam o seguinte: até 2050, o português poderá estar entre as três línguas mais faladas do planeta, impulsionado principalmente pelas elevadas taxas de natalidade dos países africanos lusófonos. Ao mesmo tempo, as variedades africanas do português vêm desenvolvendo vocabulários, ritmos e expressões culturais próprios, deslocando gradualmente o centro de gravidade da língua para além do eixo tradicional Portugal–Brasil. São milhões de pessoas estudando, produzindo, criando, consumindo, se comunicando em português.
Portanto, não subestimem sua importância nessa clara mudança demográfica que passa despercebida por razões que vou explicar na próxima coluna. Há algo realmente no horizonte que coloca nossa língua como uma ponte estratégica para bons negócios e gerar mais impacto cultural. [Continua]





