Um turista aguardava um trem no Japão quando o sistema de som da estação anunciou em inglês: “Pedimos nossas sinceras desculpas pelo atraso. Ficamos parados por 3 minutos e 20 segundos. Isto é inaceitável. Obrigado por sua paciência.” Quando o turista desceu no seu destino, havia funcionários da empresa distribuindo papéis. Segue o testemunho do turista publicado na rede social X: “Saí do trem e havia funcionários na plataforma fazendo reverência e distribuindo atestados de atraso. Peguei um por curiosidade. Era um documento oficial informando que o trem havia se atrasado 3 min e 20s, assinado e carimbado. Um dos funcionários me disse em inglês: ‘É para o seu empregador. Assim ele saberá que o atraso não foi culpa sua.’ Expliquei que eu era turista e que não precisava daquilo. Ele pareceu confuso. ‘Mas o atraso afetou você. Você também merece um pedido de desculpas.’ Três minutos. Eles tratavam um atraso de três minutos como se fosse um grande incidente.”
A meu ver, esse nível de civilidade das coisas públicas e das empresas com o indivíduo acaba levando o próprio indivíduo também a respeitar a vida em coletividade, e vice-versa. Entender a pontualidade como um dever e uma forma de respeitar o tempo de cada passageiro é uma demonstração de evolução da convivência em comunidade que é rara, mas que não deveria ser. E a mesma lógica rege outras áreas da vida cotidiana no Japão: escolas, negócios, limpeza urbana, trânsito.
O Japão é um país conhecido por ser muito restritivo à imigração, mas não se trata de preconceito, como críticos simplistas tendem a encarar a questão. É por proteção à sua identidade, aos seus modos, às suas regras de convivência tácitas, à sua cultura milenar. Infelizmente, nem todo imigrante, quando chega à nova terra, entende que é ele quem deve se adaptar à cultura local e não o inverso. O imigrante pode sim contribuir com sua própria cultura desde que seja para agregar e não para destruir o que já existe. O que há de polêmico nisso?
Aqui na Serra gaúcha somos elogiados por mantermos as ruas limpas, a hospitalidade, a organização, o capricho. É uma região admirada não só pelos vinhedos, pelo frio e pelas paisagens belíssimas, mas também pelo nosso modo civilizado de viver (ao menos a maioria de nós). Perder a identidade e os padrões básicos de civilidade jamais pode acontecer em nome de uma falsa sinalização de virtude, ou seja, só para parecer bonzinho via acolhimento sem contrapartida. Todo mundo é bem-vindo aqui e será respeitado desde que também respeite o que construímos há mais de 100 anos: um jeito de viver que virou até mesmo atração turística Brasil afora.
(Obrigada, Dagoberto Lima Godoy, um dos meus leitores mais assíduos, pela conversa e pela inspiração sobre o tema).




