Tenho implicâncias dignas de serem debatidas no tribunal das minúsculas causas. Uma delas é quando vejo alguma foto aqui da Serra gaúcha com a legenda “Parece a Europa”. Sempre tenho vontade de retrucar dizendo que tal comparação é irrelevante, porque os imigrantes europeus que aqui chegaram há dois séculos conseguiram construir uma identidade própria em comunhão com a natureza exuberante da nossa geografia.
Não parece a Europa, parece o Brasil, é o Sul que muitos tentam rotular como uma região à margem do que supostamente seria a nação brasileira. Até entendo quando a comparação vem de um turista que chega a Gramado nesta época do ano e se depara com as árvores em suas cores exuberantes de outono, a neblina encobrindo a cidade, o frio, o vestuário de inverno, o cardápio com pratos da gastronomia francesa, alemã e italiana: tudo aparentemente remete ao exterior, só que não somos estrangeiros, somos brasileiros do sul.
O povo que mantém as ruas limpas, seguras e organizadas, o atendimento de excelência em hotéis, pousadas, restaurantes, parques e comércios, os bons modos dos motoristas ao respeitarem a faixa de pedestres, os locais públicos sem pichações ou marcas de vandalismo: o povo que cuida disso também é brasileiro. É um Brasil que existe e que prova que a sujeira, a violência, o desrespeito ao patrimônio público, os maus modos não são um destino cruel de um povo maltratado pelos “colonizadores”, mas são uma escolha. As pessoas escolhem atirar uma latinha de energético no chão em vez de colocar dentro da lixeira que fica ali a poucos metros de distância, as pessoas escolhem vandalizar bancos de praça e paradas de ônibus, as pessoas escolhem serem grossas, barulhentas e invasivas, as pessoas escolhem roubar e matar.
E nossos governantes, por sua vez, escolhem não educar, não multar, não punir, não separar os bárbaros e violentos do convívio com quem é civilizado. Assim, quando os civilizados acabam se tornando a minoria em sua rua, comunidade, bairro ou cidade, ou ficam acuados dentro de suas casas, ou se mudam. Alguns vão tentar a vida em outro país, uma decisão sempre dolorosa e traumática. Outros talvez percebam que nem precisam sair do país para viver com um pouco mais de dignidade e de beleza em seu entorno.
Os ataques injustificáveis aos “sulistas” provavelmente partem de uma agenda perversa que visa mascarar o fato de que nosso subdesenvolvimento é escolha e não um destino irrevogável traçado no momento em que Portugal “descobriu” o Brasil. Fincar o pé no vitimismo e colocar a culpa em impérios antigos e atuais não nos tira a responsabilidade de fazer do Brasil uma nação mais segura, limpa, organizada e civilizada. A existência da Serra gaúcha é um lembrete disso.



