Assistir à Igreja Matriz de Flores da Cunha arder em chamas trouxe um tipo de tristeza difícil de explicar. Como católica, testemunhar a destruição de um de nossos templos sagrados e patrimônio histórico é pensar em quantos batizados, quantas missas de Primeira Comunhão e de Crisma, quantos casamentos, quantas eucaristias foram ali celebradas, incontáveis lembranças. A fé, sem dúvida, permanece, as memórias também, mas principalmente fica a vontade de reconstruir e de renovar a ligação com Deus por meio dessa casa cheia de simbologia.
Por falar em símbolos, restaram duas cenas marcantes daquela triste tarde de segunda-feira: os bombeiros carregando a estátua de Jesus morto intacta pelas escadarias e a imagem de Nossa Senhora de Lourdes lá no alto da igreja centenária com o telhado ao fundo sendo consumido pelo fogo. Uma coisa que muitos não entendem sobre o catolicismo é que não somos “adoradores de imagens” ou de “falsos deuses”. Nossa arte sacra e nossos monumentos arquitetônicos — capelinhas, igrejas, catedrais, basílicas — são apenas um meio de recordar histórias e personagens das escrituras sagradas que nos ajudam a viver por meio de seu exemplo.
E no mês mariano, é sempre bom reafirmar quem é a mãe de Jesus, Maria, para nós. Os católicos têm essa tradição de atribuir alcunhas à Nossa Senhora conforme o lugar de aparição ou devoção (Lourdes, Fátima, Caravaggio, Guadalupe, Aparecida) ou aspectos da vida e sentimentos de Maria (das Dores, do Rosário, da Conceição, Desatadora de Nós).
Nossa Senhora de Lourdes é um dos títulos dados a Maria dentro da tradição católica. A devoção surgiu em 1858, na pequena cidade de Lourdes, na França, quando a jovem camponesa Bernadette Soubirous afirmou ter visto várias aparições de uma “senhora vestida de branco” numa gruta. Segundo o relato, essa senhora depois revelou à garota: “Eu sou a Imaculada Conceição”. As aparições começaram a atrair peregrinos do mundo inteiro, principalmente por relatos de curas associadas à água da gruta, e Lourdes se tornou um dos maiores centros de peregrinação católica até hoje.
Acredito que os frades capuchinhos franceses que lideraram com a comunidade a construção da Igreja Matriz de Flores da Cunha pensaram na mãe Maria em 1916 como um sinal de proteção para os imigrantes numa terra nova e também para quem ainda estava lá no Velho Continente. Naquele ano, a França vivia um dos momentos mais difíceis da Primeira Guerra Mundial. O país estava no centro do conflito contra o Império Alemão, e boa parte do norte francês havia sido devastada por trincheiras, bombardeios e batalhas gigantescas. No perigo, na incerteza e no medo, chamamos nossa mãe, a morada da fé. E lá estará ela sempre a nos guiar e nos cuidar.




