No meio das minhas leituras, apareceu recentemente o conceito de tapas, que em sânscrito significa literalmente “calor”, “ardor” ou “disciplina interna”. Vem do yoga clássico e está associado à ideia de transformação através de esforço consciente e de uma mente civilizada.
Não sou praticante de yoga, mas sempre gostei de aprender sobre artes e saberes milenares que insistem em resistir ao tempo, à modernidade, às mudanças da sociedade porque ainda fazem sentido e dão algumas explicações sobre a existência. Tapas, por exemplo, é praticamente a contraposição perfeita a essa bizarra tendência atual das pessoas performáticas. Hoje tudo parece sonhado, pensado, planejado, adquirido e vivido para ser postado, para ser exibido a uma suposta audiência, uma massa disforme que sequer te conhece de verdade ou sabe das tuas reais lutas, dores, anseios. Performáticos vivem para impressionar os outros enquanto abandonam a si mesmos.
Por que tanta necessidade de se expor, ou, pior, de expor o que talvez esteja longe da verdade? É gente que vai para a academia por 50 minutos, mas passa metade desse tempo ajustando caras e bocas e looks para postar uma foto no Instagram. É gestor que escreve textos gigantescos no Linkedin falando em excelência administrativa, mas que todos sabem que foi responsável por prejuízos imensos nas últimas empresas em que trabalhou. É prefeito que gasta milhões em publicidade e investiu nem um terço desse valor na infraestrutura de sua cidade. É gente classe média que não se conforma em viver conforme seus meios e acaba endividada no cartão de crédito para aparentar uma riqueza que não tem e frequentar ambientes chiques e caros na ilusão de pertencer à elite.
Uma das definições mais interessantes de tapas diz que se trata de um fogo interno que queima o ego aos poucos — mas sem fumaça visível. É o que retira a necessidade de estar certo ou de ser visto e aplaudido, sem apelar para o vitimismo quando se é simplesmente ignorado. É aquela disciplina interior que não precisa de validação externa, é um autodomínio emocional e mental que impede que se reaja por impulso, que te leva a cultivar a paciência de esperar. Além disso, pede constância: fazer o que precisa ser feito todos os dias, mesmo sem motivação, ser disciplinado, essa qualidade tão importante e nem sempre tão valorizada como se deve. Tapas também tem a ver com a renúncia silenciosa, com abrir mão daquela mentalidade idiota de “mimar-se” o tempo todo, de ser indulgente consigo mesmo só para ostentar.
O Brasil, segundo o Serasa, tem hoje 82 milhões de endividados. Acredito que metade deles se encontra nessa situação porque faltou tapas (e uma boa dose de educação financeira).



