Há algum tempo venho me deparando com o conceito de high-trust society (sociedade de alta confiança) e de low-trust society (sociedade de baixa confiança) como a chave para desvendar e explicar a percepção de valor e de qualidade de vida numa cidade, numa região, num país. Muitas vezes, se tomam fatores como renda per capita, natureza exuberante, infraestrutura moderna, água, comida e ar limpos, energia abundante e saneamento básico como os critérios principais para definir onde é um lugar bom de se viver.
Sem dúvida, tais elementos são indispensáveis para que uma sociedade conviva em harmonia com possibilidade de desenvolvimento e de progresso sustentável. Contudo, há também a questão de como as pessoas se relacionam, se elas podem ou não confiar umas nas outras para que esse organismo vivo chamado “comunidade” possa se manter saudável e civilizado. Os termos high-trust society e low-trust society ganharam destaque nas ciências sociais principalmente a partir de 1995, com o lançamento do livro Trust: The Social Virtues and the Creation of Prosperity (Confiança: As Virtudes Sociais e a Criação da Prosperidade), do cientista político norte-americano Francis Fukuyama (infelizmente sem edição em português pelo que sei). Foi ele quem popularizou a distinção entre sociedades de alta e de baixa confiança, analisando como a confiança social influencia diretamente o desenvolvimento econômico, a organização das empresas e a capacidade de cooperação em larga escala.
Fukuyama comparou países como Japão, Alemanha e Estados Unidos (que ele classificava como de alta confiança) com outros países onde a confiança ficava restrita à família, dificultando a criação de grandes organizações eficientes. Resumindo: o conceito de confiança social é um fator essencial para desenvolver a economia e as instituições. E onde o Brasil se posiciona nesse espectro? Infelizmente, nosso país — com raríssimas e honrosas exceções — é basicamente uma imensa sociedade de baixa-confiança.
Querem um exemplo recente? Na Sexta-Feira Santa um grave acidente aéreo em Capão da Canoa resultou na morte de quatro pessoas. Por volta das 10 horas da manhã, um avião de pequeno porte se chocou logo após a decolagem contra um restaurante, seguiu-se uma explosão, o estabelecimento ficou praticamente destruído. Mas o horror da tragédia com vítimas fatais não foi suficiente para impedir que gente muito vil tirasse proveito da situação e saqueasse o local durante a troca de vigilantes.
Por sermos uma sociedade de baixa-confiança, após o acidente, os proprietários contrataram uma vigilância privada para cuidar do local porque a parte dos fundos tinha ficado intacta. Mesmo assim, foram roubados. Quer sociedade de confiança mais baixa do que isso? É desanimador.



