Acredito que todo debate sobre o mercado de trabalho e suas transformações seja benéfico à sociedade desde que não se perca a conexão com a realidade. Infelizmente, a discussão sobre a jornada 5x2 deixou de ser analisada sob critérios técnicos para virar mais uma sinalização de virtude vazia e meramente populista ao convenientemente ignorar os fatos.
A verdade é que na indústria a imensa maioria dos funcionários já trabalha de segunda a sexta e garante o sábado e o domingo para si. A questão é que o final de semana, que deveria ser de descanso para essas pessoas, infelizmente se tornou um tempo usado para um bico, para um trabalho informal qualquer, a fim de complementar a renda da família. Há quem faça bolo para vender, quem trabalhe de entregador, motorista de aplicativo, garçom, faxineiro, vigilante, ou qualquer outro emprego secundário. Num país em crise como o nosso, com tantos endividados e tanta gente esmagada por impostos abusivos e inflação pressionando o orçamento doméstico, alguém realmente acha que uma única fonte de renda vai bastar?
Numa futura escala obrigatória 5x2, não tenham dúvidas de que muitas famílias usarão esses dois dias para trabalhar também. E aí? De quem é a culpa? Antes que alguém venha ingenuamente com o discursinho adolescente de que “basta o patrão pagar um salário maior”, sugiro que estude um pouquinho sobre as leis trabalhistas aqui no Brasil: o custo de um funcionário hoje já é altíssimo justamente porque boa parte do valor não vai para o trabalhador, mas para um Estado quebrado e irresponsável na administração do dinheiro público.
Por exemplo, um trabalhador que recebe hoje dois salários mínimos (cerca de R$ 2.824 brutos) custa para a empresa algo próximo de R$ 4.400 por mês quando se somam INSS patronal, FGTS, 13º, férias e demais encargos previstos na Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT. Desse total, o empregado leva para casa em torno de R$ 2.600 líquidos, já com desconto de INSS. A diferença (perto de R$ 1.700) se distribui entre contribuições obrigatórias e provisões legais recolhidas via Receita Federal e fundos vinculados ao próprio trabalhador. Isso é uma amostra de que o custo total de contratação formal no Brasil é significativamente maior do que o valor que de fato chega ao bolso do empregado.
Uma ideia que surgiu sobre o futuro do mercado de trabalho é de que as empresas não sejam mais as responsáveis por recolher tais “contribuições”. Para que o trabalhador tenha a real noção do quanto do seu suor vai para o Estado, seria excelente que ele próprio pagasse tais tributos e soubesse quem é mesmo que está levando a grana sem dar o retorno devido ao povo brasileiro. A fatia imensa do Estado glutão e incompetente é que deixa pouco bolo para repartir com o cidadão brasileiro.



