Se eu perguntasse para um matemático o que é uma escala 0x0, provavelmente ele me daria a seguinte explicação: em gráficos ou medidas, uma escala “0x0” indica que o eixo X vai de 0 a 0 e o eixo Y também vai de 0 a 0. Como resultado, não há dimensão alguma, e nada pode ser representado, ou seja, trata-se praticamente de um ponto vazio. Já em avaliações ou escalas de pontuação, a expressão pode indicar ausência total de medida ou algo que não foi avaliado ou que simplesmente não existe.
Com a escala de trabalho 6x1 no centro do debate aqui no Brasil, acho impressionante que pouquíssima gente esteja discutindo uma provável escala de trabalho 0X0: num futuro próximo, milhões de pessoas serão totalmente obsoletas, se tornarão um “ponto vazio”. Não terão trabalho formal e muito menos folga, visto que por falta de qualificação serão obrigadas a fazer bicos e a se submeterem a um subemprego qualquer para colocar comida na mesa. Já há quem defenda um benefício social universal para essas pessoas, mas cá entre nós, não haverá dinheiro público nem caridade suficiente que sustente uma massa de seres humanos adultos sem função útil para a sociedade.
E não sou eu quem está dizendo isso, são especialistas em futuro, pessoas que estão não só fazendo projeções, mas literalmente construindo o amanhã. Em uma conversa no podcast The Weekly Show with Jon Stewart a que assisti recentemente, dois economistas do renomado Massachusetts Institute of Technology - MIT, Daron Acemoglu e David Autor, levantaram preocupações sobre os impactos sociais e econômicos da inteligência artificial. Destacaram que o risco não está apenas na eliminação de empregos, mas na criação de funções que dispensam especialização, o que pode desvalorizar o conhecimento técnico e a experiência acumulada dos trabalhadores.
Na verdade, isso de certa forma já está acontecendo: quantos jovens compraram a conversa de que bastava um diploma de graduação para ter emprego e renda garantidos? Terminaram a faculdade, fizeram pós-graduação e agora sequer conseguem chegar ao final do mês com as contas em dia. Em comparação com profissionais graduados da geração anterior, estão mais exaustos, mais pobres, mais endividados e mais desempregados. Enquanto isso, tente contratar um bom encanador numa sexta-feira pagando menos que R$ 100 a hora: é praticamente impossível! Por mérito de ter escolhido um ofício que robô ou I.A. nenhuma consegue fazer (por enquanto), se tornaram profissionais requisitados, respeitados e disputados no mercado.
Quem está começando uma jornada acadêmica e profissional hoje precisa lembrar que uma das leis que continua implacável na vida real é a lei da oferta e da demanda. Só isso vai evitar que alguém se torne um ponto vazio no futuro.





