O termo “aura” vem sendo usado nas redes sociais para designar quando alguém ou algum fato transmite uma impressão estética ou emocional sem que seja necessário dizer uma única palavra. Não tem nada a ver com o sentido místico que permeia questões transcendentais de várias correntes espirituais e religiosas. É uma marca de presença, de atitude, de prestígio que um acontecimento passa a ter no imaginário coletivo.
Foram os jovens que começaram a usar “aura” como uma espécie de sistema de pontuação invisível de respeito, estilo e autoridade social para falar de alguém que se impõe pelo poder e pela sua força intelectual, moral e psicológica. Às vezes, um contexto inteiro precisa de um único momento para adquirir uma aura inquestionável.
Ontem acordei cedo como de costume e vi no perfil Hoje No Mundo Militar um desses momentos. Na base naval de Île Longue, na Bretanha, tendo como cenário o submarino nuclear de mísseis balísticos Le Téméraire, o presidente da França, Emmanuel Macron, fez um anúncio que provavelmente será considerado histórico nos próximos anos. Quase que tarde demais, os franceses resolveram ampliar seu arsenal nuclear, o que não faziam desde 1992, encerrando décadas sem aumento no número de ogivas. Também anunciou maior opacidade estratégica, ou seja, a França deixará de fornecer como dados públicos informações sobre seu arsenal. Além disso, vai ampliar o que chamam de “guarda-chuva nuclear” para oito países da Europa: Alemanha, Holanda, Grécia, Polônia, Bélgica, Dinamarca, Suécia e Reino Unido. Ainda é previsto o envio temporário para bases aliadas (e por aliados entende-se aqui os EUA e o Reino Unido) de aeronaves francesas, como os caças Dassault Rafale, equipadas com ogivas nucleares, além da realização de exercícios conjuntos.
Na Segunda Guerra Mundial, a França de início foi uma decepção. O fracasso retumbante da tal linha de defesa Maginot, a rendição dos franceses em menos de seis semanas e a vergonhosa assinatura do armistício que culminou no regime de Philippe Pétain em Vichy deixaram uma mancha no brio daquela nação. Talvez a cena de ontem, com o presidente, generais e autoridades de alta patente cantando A Marselhesa naquele estaleiro naval militar diante do submarino batizado de “O Ousado” tenha sido uma tentativa de resgatar a aura de um país.
Ou talvez não tenha passado de um showzinho do fraco Macron que, como outros líderes europeus, passou tanto tempo querendo sinalizar virtude por vaidade que colocou um continente inteiro em risco só para parecer bonzinho. Talvez hoje existam centenas de células terroristas em Paris, Londres e Berlim sem nada mais a perder e que lá estão porque contaram com a empatia burra do Ocidente.


