Quando comecei minha carreira no magistério em 1994, ganhei de presente de uma aluna um potinho de conserva de vidro, todo enfeitadinho, com a bonequinha de uma professorinha lá dentro, o cabelo de lã preso num coque, óculos de grau, um livro na mão. Lembro que esses potinhos eram chamados de “Gente em Conserva”, e havia todo tipo de homenageado: outras profissões como médico, bibliotecária, engenheiro, advogada, mas também potinhos para mãe e tia, avô e pai, irmão e irmã.
A mensagem daquele presente singelo parecia muito clara e enternecedora: a gente conserva quem é fundamental para nutrir nossa alma, quem faz parte da nossa caminhada, quem nós queremos que fique guardado na nossa lembrança para sempre.
Por isso não entendi por que a tal escola de samba do Rio de Janeiro resolveu usar o conceito de “conserva” para debochar das famílias brasileiras numa homenagem ao presidente da República (ou diria num “equivocado culto à personalidade”). As latinhas de conserva retratando uma família tinham o objetivo de ironizar o conservadorismo? Serviram para ridicularizar os valores de mais da metade da população brasileira? Por que tanto escárnio contra o pilar que sustenta qualquer sociedade sadia, que é justamente a estrutura familiar?
Em mais uma tentativa de legitimação pela afronta, aqueles que se dizem defensores da paz, do amor e dos direitos humanos são os primeiros a provocarem discórdia, desunião e intolerância. O retrato desenhado de uma família tradicional de semblante sereno no rótulo de uma lata de conserva, com o intuito de ironizar e criticar os neoconservadores, foi claramente uma provocação estúpida e desnecessária. Uma família tradicional não é a culpada pelas mazelas de uma sociedade. Filhos bem criados não se tornam criminosos, filhos protegidos não viram estatística no tribunal do tráfico, filhos bem amados não se tornam violentos.
Uma família amorosa com pai e mãe presentes também não é inimiga do progresso, nem é a culpada por todas as mazelas de uma sociedade injusta, violenta e profundamente desesperançada. O amor, a união e a fé de uma família não causam a destruição de outras famílias, muito menos o sofrimento de muitas crianças e adolescentes por causa do abandono e da incompreensão que sofrem. Indivíduos maltratam indivíduos. Miraram no conservadorismo tosco, acertaram naquela mãe incansável em suas orações pelo bem-estar de seus filhos. Quiseram sinalizar uma virtude progressista inexistente, mas só debocharam de um pai que não mede esforços para sustentar um lar.
Desfile extremamente equivocado, crítica mais equivocada ainda.






