Rota do Sol, quinta-feira, início da tarde, sentido Litoral-Caxias do Sul. Saindo de Tainhas, à esquerda o tempo se armava de um jeito assustador, com as nuvens cada vez mais escuras; à direita, parcialmente nublado com alguns resquícios de céu azul. Eu peguei estrada pensando que talvez daria tempo de chegar em casa antes do temporal, só que não: o barulho de uma única pedrinha de gelo caída no seco fez o medo me reduzir ao tamanho de uma formiga. Eu não iria escapar do mais temido dos temporais, aquele com granizo e vento.
O pior de tudo: no carro, eu não estava sozinha, estava com a minha filha, e todos os leitores que são pais entendem minha apreensão. No momento em que estamos com nossos filhos numa situação de certo risco, o instinto de proteção primordial nos leva a procurar abrigo a qualquer custo. Não iria me pegar desprotegida na estrada quando a chuva de pedra e o vendaval chegassem pra valer.
Foi aí que contei com a bondade de estranhos, a prova irrefutável de que vale sim a pena se manter otimista num mundo com tanta coisa ruim acontecendo o tempo todo. Estava perto da empresa Acrilys em Lageado Grande e vi o conhecido pórtico grande e arredondado com a passagem livre. Avisei a minha filha: “Vamos parar um pouco até passar o temporal”. Entrei no pátio e parei o carro sob o abrigo do pórtico. O segurança abriu a porta da guarita imediatamente enquanto eu abria o vidro e pedia “Por favor, posso ficar aqui até passar?”
Neste momento, sendo uma propriedade particular, aquele rapaz poderia ter agido apenas protocolarmente e me dito que não podia, que eu estaria interrompendo a passagem, ou dado qualquer outra desculpa mecânica para eu não ficar ali. Contudo, a humanidade obviamente falou mais rápido e com mais autoridade que qualquer outra coisa: “Claro que pode, imagina”. Nisso, um casalzinho jovem com um Nivus branco parou ao meu lado, a moça abriu o vidro com um olhar assustado para conferir se podíamos mesmo parar ali. As pedras de gelo já caíam com força, algumas do tamanho de uma bolinha de ping-pong, outras até maiores. Foi tenso, mas o abrigo oferecido por um desconhecido garantiu a minha segurança, a da minha filha e daqueles dois jovens.
Passado o temporal, agradeci e nos despedimos. Na verdade, a sensação é de que nunca vou saber como retribuir tamanha gentileza. Pode parecer que não tenha sido nada demais, mas reflitam sobre todas as vezes que alguém se omitiu numa situação semelhante ou simplesmente hesitou em ajudar. Precisamos valorizar quem toma a frente pelo bem do próximo e da comunidade. Sem isso, estaríamos reduzidos a escombros.





