Estou em Vancouver, Canadá, acompanhando um grupo de estudantes num intercâmbio. Agora entendo o motivo de esta cidade sempre figurar nas listas dos 10 melhores lugares para se viver no mundo. Acredito que há, sim, algo especial que vai muito além das inegáveis belezas naturais e infraestrutura urbana invejável: há comunhão e harmonia de diferentes povos, raças e estilos de vida que testemunhei pouquíssimas vezes nas minhas andanças por aí.
Dias atrás fui até a pista de patinação na Robson Square com meus alunos e o que vi explica muitas coisas sobre a atmosfera de Vancouver. Havia muitos jovens e adolescentes, obviamente, por se tratar de uma cidade que recebe intercambistas do mundo inteiro. Mas também havia muitas famílias — crianças, adultos e idosos — patinando em círculos na pista, alguns iniciantes e outros mais experientes, ao som de diferentes estilos musicais que, em comum, tinham a qualidade de ser música boa. Teve até uma banda de jazz tocando ao vivo. O melhor de tudo é que não se trata de um lazer caro, é bem em conta.
Ninguém se atravessava na frente dos outros, não tinha nenhuma JBL estridente tocando música ruim e atrapalhando o ambiente, ninguém desrespeitava as regras da pista, muitos se ajudavam a equilibrar-se nos patins ou davam a mão para alguém caído poder se levantar. Indianos, árabes, latinos, canadenses, europeus, japoneses, coreanos e chineses, todos em sintonia dando voltas e voltas, trocando sorrisos e olhares de incentivo quando faltavam as palavras do único idioma em comum, o inglês, nossa língua franca dos negócios, das ciências, do turismo internacional.
Uma estudante acabou esquecendo o celular sobre o banco na área dos armários enquanto colocava os patins. Brasileira que é, a alma saiu do corpo ao se dar conta de que tinha perdido seu telefone. Já haviam passado 15 minutos quando ela voltou lá e encontrou seu smartphone exatamente onde tinha deixado.
Esse tipo de paz, de segurança, de civilidade e de respeito no convívio social é algo há muito perdido, talvez sequer criado, no Brasil. Aqui no Canadá é inimaginável que uma praia amanheça tomada de lixo como aconteceu em Capão da Canoa no Ano-Novo ou que um massa de acéfalos ache por bem criar uma festa funk no meio da rua perturbando um bairro inteiro. Ser invasivo e obrigar os outros a aturar outro tipo de lixo: o cultural e comportamental. Vivemos uma decadência que não é sequer questionada, quanto mais combatida.
Infelizmente parece que a miséria moral e a impunidade frequente não permitem que um dia comum em Vancouver seja uma realidade para brasileiros civilizados. Aos selvagens e bárbaros, já seria um grande passo se sequer conseguissem localizar Vancouver no mapa.




