As imagens dos caxienses empolgados com os passeios noturnos na Praça Dante Alighieri e na Avenida Júlio de Castilhos chegam a ser comoventes. A decoração de Natal trouxe os cidadãos para o centro porque, junto com as luzes natalinas e os eventos programados, há também uma rara sensação de segurança em poder andar pelas ruas à noite. Segurança essa que existe porque há mais policiamento sim, mas também porque se tem ao redor outras famílias, outras pessoas com boas intenções, e não apenas “nóias” ou bandidos à espreita prontos para te assaltar ou fazer coisa pior.
Os cidadãos estão curtindo a sensação maravilhosa de ter as ruas de volta para a comunidade em vez de entregues à bandidagem, ao vandalismo, à sujeira, ao medo. Uma das maiores feridas abertas das grandes cidades é a insegurança, porque isso tira a liberdade de ir e de vir dos honestos – de todas as classes sociais, de todas as crenças, de todas as raças, de todos os gêneros. Uma das maiores falácias para justificar a incompetência do Estado na área da segurança pública é que o crime só existe como fruto de “profundas desigualdades sociais” e que isso é um tema “complexo”.
Não tem nada de complexo: é uma questão simples e milenar de bem contra o mal, honestidade e desonestidade. As vítimas do crime são muitas. Não é só “playboy” e “riquinho” que se tornaram alvos: todos nós somos alvos, como o jovem que teve o celular roubado sem nem mesmo ter quitado as prestações do aparelho, como a diarista que perdeu o dinheiro recebido da faxina num assalto ao ônibus urbano, como o idoso que apanhou na saída do banco. A diferença é que quem tem mais dinheiro consegue arcar com os custos (altíssimos) de uma segurança privada. Os mais pobres e a classe média precisam das forças públicas para ter proteção. O mais revoltante é que o Estado sequer consegue manter na cadeia quem cometeu crimes hediondos, e o índice de reincidência é aterrador.
A população há anos clama pelo direito de se sentir segura. Os bons são a maioria, contudo há muito tempo viraram reféns de uma minoria violenta que não tem nada a perder e se refestela nessa festinha de impunidade. Sabem que “não vai dar nada”. Nossas autoridades, dos três poderes (legislativo, executivo e judiciário), vêm demonstrando uma incompetência atroz ao lidar com esse tema que impacta a nós todos. Infelizmente, nos resta apenas aproveitar os raros momentos em que as ruas são nossas de novo, em que a cidade vira casa de todo mundo. Por uns dias, sentimos o que todo morador de um país realmente desenvolvido sente: andar tranquilo por aí, seja de dia ou de noite. É um luxo que não deveria ser visto como luxo, mas como um direito. É um direito que nos foi tirado.



