“Você sabe o que eu quero dizer/ Não está escrito nos outdoors/ Por mais que a gente grite / O silêncio é sempre maior” Engenheiros do Hawaii
Quando li que a Câmara de Vereadores havia aprovado um projeto de lei que autoriza a possibilidade de patrocínio de empresas nos uniformes da rede municipal de ensino de Caxias do Sul, fiquei pasma: como assim? As crianças das escolas públicas vão se tornar pequenos outdoors ambulantes? Sinceramente, parecia coisa daquele seriado de ficção científica Black Mirror, em que num futuro distópico a questão da publicidade ultrapassa qualquer limite.
A intenção sem dúvida é a melhor possível: como o uniforme não é oferecido gratuitamente, o patrocínio via parceria público-privada seria uma forma de reduzir os custos às famílias e garantir que todos os alunos tivessem vestimentas adequadas, principalmente para encarar os rigores do inverno caxiense. Procurei a vereadora Daiane Mello (PL), que assinou a proposta, para tentar entender melhor a ideia. Segundo a vereadora, com a carga tributária que se paga, o uniforme escolar deveria ser prioridade no orçamento do município, e não é o que acontece.
A primeira coisa que questionei foi: por que uma cidade supostamente rica como Caxias do Sul é incapaz de investir com recursos próprios? Aliás, por que a educação e o bem-estar das crianças em idade escolar parecem nunca caber por inteiro no orçamento das cidades, dos Estados, do país? Duvido que haja uma única pessoa, um único contribuinte que não colocaria a educação como um dos três principais investimentos por parte do poder público (ao lado de saúde e de segurança).
Por falar em segurança, a padronização da vestimenta das crianças e adolescentes em idade escolar é uma questão de criar identificação e pertencimento à escola. Sem dúvida, os estudantes devidamente identificados no trajeto entre suas casas e o colégio, no transporte público e nas ruas ficam mais seguros sob a atenção de todos.
Contudo, houve um segundo questionamento: ter uma propaganda de empresa, uma logomarca na camiseta ou no moletom dos estudantes não seria meio antiético e até mesmo indigno com um menor de idade transformado em veículo de publicidade? A vereadora explicou que é proibida a utilização do espaço para propaganda com fins eleitorais e quaisquer produtos ou serviços nocivos à saúde (cigarros e similares, bebidas alcoólicas) ou que atente contra os bons costumes. Porém, a regulamentação definitiva ficará sob responsabilidade do município.
Basicamente, a Câmara apenas liberou o Executivo para firmar uma parceria futura com o setor privado no fornecimento desse material aos estudantes. Mas não é um tema para silêncio, precisa ir muito “além dos outdoors”. Que se debata com maturidade.


