Eu fico imaginando como os moradores do bairro Primeiro de Maio de Caxias do Sul se sentiram na tarde do último sábado (18) ao verem um suposto morador de rua com manchas de sangue caminhando pelas ruas. Aposto que, num primeiro momento, ficaram com pena daquele homem aparentemente em situação vulnerável, ferido e supostamente precisando de ajuda. Para surpresa de muitos, aquele homem na verdade era um assassino identificado por uma equipe da Guarda Municipal. Tinha antecedentes por crimes de roubo, estelionato e receptação e, algumas horas antes, havia matado a sangue frio o educador social David Júnior de Oliveira Alves, de 39 anos, que trabalhava numa casa de passagem mantida com recursos públicos e trabalho voluntário da comunidade caxiense.
Não é a primeira vez que um inocente perde a vida nas mãos de um “morador de rua”: em fevereiro de 2024, a vítima foi José Monteiro da Silveira, de 34 anos, que passeava com seu cachorro nas ruas do bairro Rio Branco e levou várias facadas no peito e nas costas. O assassino era também um “morador de rua”, na verdade, outro criminoso com extensa ficha criminal com passagens por porte de arma de fogo, tráfico, jogos de azar, ato obsceno, lesão corporal e homicídio.
Há muitas feras à solta nas nossas cidades, e não falo de animais selvagens, mas de seres humanos que, por várias razões (dependência química sem tratamento, fuga do sistema prisional e impunidade), tornaram-se perigosos para outros seres humanos. No fundo, essas tragédias seriam evitáveis caso profissionais e servidores públicos (psicólogos, terapeutas, assistentes sociais, médicos, enfermeiros), e principalmente quem realmente tem o poder da caneta para dar um jeito nisso, tomassem a atitude que o bom senso pede: manter esses indivíduos bem longe do convívio social. E por que não estão?
O surto de um dependente químico sem tratamento, a agressão de uma pessoa violenta sem nada perder, o assalto, o assassinato de um inocente por parte de um foragido da justiça: tudo isso ocorre num contexto de falta de atitude e de falsa sinalização de virtude. Não é mais questão de “se” mas de “quando” vai acontecer e de “quem” será a vítima.
Eu entendo que muitos desses “moradores de rua” na verdade são como cacos de vidro escondidos sob a areia da praia prestes a ferir alguém com gravidade. Estão invisíveis sob uma camada ilusória de vulnerabilidade que é recompensada com acolhimento por parte de quem acha que está fazendo o bem. Alegam que seria desumano tolher sua liberdade de ir e vir. Dependentes químicos há tempos não têm liberdade: perderam a alma e o juízo para o vício. E azar de quem cruzar seu caminho: vão ferir, mutilar e matar sem a piedade que só os ingênuos têm por eles.



