
A manhã de sábado (21) começou com a triste notícia do assassinato da ex-vereadora de Nova Prata, Roseli Vanda Pires Albuquerque, aos 47 anos. É mais uma vítima do alarmante número de feminicídios que assola o Estado. São inadmissíveis 16 desde o início do ano, uma média de uma morte a cada três dias.
Mas não são apenas 16 vidas abreviadas de modo cruel. São famílias destruídas, filhos, irmãos, mães e pais que ficam e precisam lidar com a realidade da ausência das mulheres que amavam. E isso por quê? Pela incapacidade de homens em enxergar as companheiras, ex-companheiras ou pretendentes como seres humanos e não objetos.
É isso que está por trás dos feminicídios, o último estágio da violência contra a mulher, que independe de profissão, classe social ou formação escolar. Tudo começa em uma cultura distorcida em que o exercício da masculinidade depende de relação de poder. Para um homem se entender como homem, ele precisa ser superior, o líder do relacionamento, precisa ser servido pela companheira.
Essa visão ultrapassada prosperou até hoje porque as mulheres aguentavam caladas, não porque gostavam. Quando encontraram um respiro, passaram se mobilizar corretamente contra a submissão e ganharam adesão de parte importante da sociedade que entendeu que essa realidade precisa mudar.
Mas há homens apegados ao passado e que não sabem lidar com a perda da posição de poder. Isso, porém, é um problema a ser enfrentado e corrigido por eles e não pelas mulheres, que têm pago com a vida. Um relacionamento saudável se faz com companheirismo, com homens e mulheres em pé de igualdade nos benefícios e nas responsabilidades. Quem acha que isso não é ser homem, jamais saberá viver em uma relação virtuosa.
E aqui fica uma humilde sugestão às mulheres, se considerarem pertinente: saber identificar essa incapacidade masculina talvez seja, atualmente, uma ferramenta de segurança, para se proteger enquanto há tempo.
A nós, homens, passou da hora de esquecer os estereótipos que aprendemos com figuras de referência. Masculinidade de verdade se exerce respeitando as mulheres. Amor não é poder e ele se conquista, não se impõe.
Ironia
Roseli era bastante conhecida pela atuação política em Nova Prata, onde também concorreu a vice-prefeita. Defensora das mulheres, havia compartilhado horas antes de ser morta, com uma amiga, o desejo de abrir um espaço de acolhimento para mulheres vítimas de violência.
Se uma mulher consciente e engajada na proteção das mulheres estava exposta ao ponto de ser morta pelo ex-companheiro, o que se pode esperar de vítimas que não conseguem sair do ciclo de violência. Enquanto a cultura machista não mudar, a proteção do poder público é cada vez mais necessária, mas ela não tem sido eficiente.






