
O desvio de doações enviadas a Caxias e região por conta da enchente de 2024, revelada pela operação Ascaris, do Ministério Público, nesta quinta-feira (4), não chega a ser algo inédito.
Talvez você lembre: em meio a milhares de voluntários que se comoveram com o drama da maior tragédia climática gaúcha, houve quem realizasse campanhas oportunistas em redes sociais, colhendo frutos pessoais. Também houve denúncias de ações pontuais de voluntários que levaram itens de doação para casa, em gesto absolutamente egoísta.
A operação Ascaris, porém, vai mais longe. Revela um esquema aparentemente estruturado de desvio de doações. Não se trata de se apropriar do bem doado a quem está sofrendo — o que já é repugnante —, mas de se criar praticamente uma atividade econômica em torno disso.
Ninguém melhora diante de tragédias, é algo sacramentado. Ainda assim, ver uma comunidade, um Estado destruído em questão de dias deveria ser suficiente para despertar um certo limite moral. Para alguns, não é.
Os destinatários das doações nunca perceberam o golpe, já que ninguém sente falta do que não tem. Só que, além de obter vantagem pessoal, os aproveitadores despertam na população um sentimento de desconfiança em relação a entidades que prestam apoio em situações do tipo, prejudicando inclusive quem faz um trabalho sério.
Por isso, é fundamental que a investigação esclareça se havia ONGs institucionalmente envolvidas ou se elas foram apenas usadas por infiltrados para obter vantagem. Sem a clareza de quem tem atuação responsável, muitas doações podem novamente não chegar no futuro. Não por desvios, mas por desconfiança de quem gostaria e não vai ajudar.






