Depois de longo retiro no meu vilarejo, ouvindo os sinos do campanário de Monte Bérico e até o som das asas das curucacas decolando da araucária do pátio, despenquei no asfalto, como um dos anjos do cineasta alemão Wim Wenders, sedentos de humanidade.
Caí no coração da Babilônia. Mas não era Berlim. E o filme não era Cidade dos Anjos (Der Himmel über Berlin, 1987).
A película começou a rodar quando, noite alta, entramos no eixo velho de São Paulo, onde duas cidades vivem sobrepostas, indefinidas: uma, sedentária, dentro dos edifícios; outra, nômade, zumbizando pelas ruas e calçadas, entre a cracolândia e a Praça da República.
O suspense insinuou-se quando manobramos o carro em marcha à ré pela garagem do hotel. Era um labirinto de colunas redondas, pouca luz, com pé-direito monumental. Mas o cansaço da viagem turvava a sondagem preliminar do espaço.
Nos dias seguintes, a garagem do velho hotel de mais de 20 andares foi-se revelando às nossas curiosidades juvenis – traço psicológico destoante em homens que já deveriam ter criado juízo há décadas. O carro, estacionado, apontava os faróis para um conjunto de portas amplas, para acesso de um grande público já extinto.
Além daquele portal, as luzes dos celulares mal clareavam um salão oval, com belas luminárias mortas pendentes do teto; vãos aéreos contornados por guarda-corpos de madeira. Pareceu-me uma sala de baile. Peguei na mochila uma lanterna mais potente e resolvi entrar pela boca negra de uma das escadas, ampla o suficiente para o tráfego de centenas de pessoas.
Dois andares, três – breu total. Mas dois lances, coração na boca, cheguei a um vão aberto em cujo fundo a luz perdia-se, sem definição. Anjo torto, entrei naquele inferno: era um cinema em ruínas, com as poltronas, tela, tudo. Faltava só o público. Ao fundo, a sala dos projetistas, com os apetrechos, retalhos de filmes; um cartaz de mulheres nuas na parede, entre os projetores; no vão oposto, um quadrinho do Sagrado Coração de Jesus.
Na noite seguinte, entramos por outra escadaria, igualmente longa e escura. Chegamos em outro cinema, muito maior, com mezaninos, centenas de lugares, forração do teto despencando. Tudo aquilo era um suntuoso complexo da sétima arte, esquecido, escondido.
Horas depois, no quarto do 11º andar do hotel, eu fechava os olhos e enxergava a grande tela vazia, sob o facho da lanterna, onde projetava-se um filme imaginário do que teria sido a babilônia paulistana nos tempos em que o Brasil era o país do futuro.



