Eu e Lua, minha gata de 16 anos, aguardamos a veterinária em uma clínica da Jacob Luchesi. Estamos sentados de costas para a rua, como se este país que ali pulsa e geme, através da vidraça, já não mais nos interessasse. Observo na mesa de canto os folhetos de uma marca de vacinas.
Lua está muito fraca. Sei que seus males vêm da velhice. Logo mais a médica desejará interná-la e desfiará uma série de objetificações humanas e argumentos que hoje em dia se aplicam aos animais domésticos, com os quais não concordo. Submeto-me.
Retorno o olhar para os folders das vacinas, dispostos no mostruário acartonado. Na imagem frontal, constam: uma doutora, branca, talvez 50 anos, sorridente, estetoscópio no cangote (como manda o clichê publicitário), seringa empunhada na mão esquerda; ao lado, um garoto, uns oito anos, branco, cabelos cacheados, radiante. E, sobre a mesa, um cachorrinho frufru, branco, tranquilo. O pano de fundo, de laboratório, completa a fotogenia de brancura extrema.
Pego os folhetos. Calicivirose: homem maduro, branco, calvo; ele segura um bebê, branco; sorriem um para o outro. Perto, sobre o sofá, está um gato de fotoshop, apreciando a cena. Ao fundo, janela com árvores em luz estourada. Um quadro superexposto, do ponto de vista da fotografia.
Panleucopenia: gato branco, pelo longo, deitado no tapete, acariciado por menina branca, cinco anos de idade, também deitada. Hepatite: perfil ariano do queixo, lábios, dentes e a ponta do nariz fino, até a aba de um chapéu branco, que encobre meio semblante de uma jovem mulher. Ela segura no colo um yorkshire, minúsculo por natureza, com casaquinho de lã.
Cinomose: dois cães filhotes, alvos, olham para câmera, no colo de mulher branca. Clamidiose: mulher jovem, loira, acaricia com o nariz a orelha de um gato tigrado, claro. Rinotraqueíte: menino branco de costas é abraçado por gato branco, peludo, com manchas cinzas. Enfim, a vacina da Raiva: mulher jovem, branca, segura o pescoço de um pastor alemão, ambos sorridentes.
Uma batida surda vem de fora, arranca-me da ilusão. Olho pela vidraça: uma mulher jovem, negra, acaba de chutar a lata de um carro que manobrava a ré, sem vê-la (talvez). Ela segue pela calçada, transtornada, despejando palavrões. Um menino, pardo, seis anos, caminha junto, em ziguezague.
A rua é um desfile de luzes e sombras, pretos, brancos e todos os cinzas do real. Volto o olhar para dentro. Lua, pelagem da noite, está tão leve. Atrás, um vidro espesso; na frente, uma parede branca.
