Tenho escrito meus diálogos caninos de bicicleta para, de certo modo, talvez covarde, evitar os temas mais imediatos da nossa humanidade – ou, da nossa desumana brasilidade. Pois só agora, tarde demais, dei-me conta do tamanho da ilusão que vivi, desde a juventude, uma ilusão gigante pela própria natureza, ilha mítica perdida nos mares do mundo: o Brasil.
A expectativa de reencontrar pelo caminho o feroz e irredutível Johnny, solto, ou ter de fugir do cão petiço, branco, de pelo curto, que ontem à tarde me perseguiu uma vez mais com os dentes arreganhados na beira de um parreiral, são cenas de quase repouso, de fuga mental.
Ser corrido por um guaipeca na friagem do Tega tem sido menos enfadonho do que encarar o centro da cidade e constatar, como quem acorda de um coma, que ainda precisamos de muitos anos – nós, humanos, brasileiros, subgrupo caxienses –, para aprender a falar, caminhar, comer, espirrar, usar máscaras corretamente – se uma pandemia mundial assim o exigir.
Outros níveis de relações humanas, tais como ler, entender, dialogar, saudar, negociar, construir (inclusive prédios), abstrair (do dinheiro, sobretudo), talvez precisem de outro século para evoluírem a outro patamar. Não precisamos buscar distantes filosofias para este diagnóstico. Isso já observava o ancião Quelbel Pineto nas páginas do livro Os pesos e as medidas (de 1980), de Italo Balen, escritor daqui – que poderia ser objeto de estudo nas escolas.
Mas estudar e interpretar são miragens no horizonte dos exércitos – incluindo marinhas e aeronáuticas – de pessoas que hoje orgulham-se de escrever errado, intubados nos seus smartphones – espelhados no modelo máximo da nossa tosca república, cujo nome é desnecessário e sofrível escrever. Pior: talvez nunca cheguemos lá. Lembro de um mantra universal da doutora Cleodes Piazza, outra intérprete da nossa identidade: “o processo civilizatório é longo, penoso, e nem sempre se completa”.
Então, voltando ao mundo canino: prefiro ter de negociar minha existência passageira com um baita pastor alemão, guardador de uma casa-monstro na baixada da Linha 30, do que travar relação com certos humanos, revestidos de autoritarismo, capazes de pisar no pescoço de uma mulher, negra e pobre. O cão pastor, ontem, não via cor e classe. Aliás, bem mais inteligente e civilizado que o seu dono, que, embarcado numa potente BMW branca, ignorando-me, acionou o portão da casa, deixando-me frente a frente com o cão. Ah! – fôssemos nós ainda macacos, ainda cães!

