Triste, escrevo esta crônica. Narro trechos da destruição simbólica – e talvez até real – de outro pedaço do horizonte histórico e afetivo da cidade: o antigo Moinho Progresso, no coração do Bairro São Pelegrino. Uma obra dantesca, no terreno alagadiço ao lado do moinho, está abrindo ali uma cratera cada vez mais sinistra e ameaçadora.
Foi com emoção que instalei a Transe Filmes, anos atrás, no prédio remanescente desse moinho quase centenário, de simples e elegantes paredes de tijolos, na Coronel Flores quase esquina com a Sinimbu. Apegado aos símbolos, levei comigo um pequeno quadro de Santa Catarina, que juntei nas calçadas do centro – a protetora dos moinhos, mecanismos, rodas; também dos pensadores.
Mas nem Ela pode (seria “pôde”) evitar que o progresso insano e arcaico que Caxias escolheu como modelo chegasse e se abancasse na divisa do moinho, com a delicadeza de uma penca de tiranossauros de esteiras. A ruidosa faina começou com o desmonte do prédio fantasma do Habib’s.
Terreno limpo, tapumes erguidos, revelou-se então o banhado primordial que o lugar sempre foi. Brotaram as águas, as capoeiras e até vigorosos tomateiros, de sementes trazidas pelo esgoto. Dezenas de espécies de pássaros passaram a viver ali. Que bela praça se poderia imaginar! Mas a eclosão da ecologia urbana duraria só o tempo de gestação do novo projeto.
Vieram equipamentos com brocas gigantes, que por longos meses perfuraram e injetaram concreto líquido em cada centímetro do contorno do terreno. O moinho tremia. Infatigáveis, atolados no lodaçal, os operários assumiam feições épicas, maquinando em torno das máquinas. Buscavam nesgas de sol na sesta depois do almoço, durante o penoso inverno caxiense – quando então se podia ver e fotografar pelas janelas do moinho o espectro de suas almas exaustas, sacrificadas à glória de um investidor podre de rico, cercado de engenheiros.
Feita a colossal cortina submersa, iniciou-se a escavação – rumo a Tóquio! E o óbvio seguiu o seu curso: desestabilizou-se, em alguma medida, o sítio de entorno. Rachaduras começam a percorrer as estruturas do velho Moinho Progresso. Há notícia de que em outro prédio, novo e sólido, as fendas são ainda mais espessas e preocupantes.
E agora? Quem autorizou e permitiu tal coisa ao lado de um prédio tombado como patrimônio histórico da cidade? Quanto descerá e subirá mais esta teimosia progressista? Haverá ainda o sol e a visão que por um século lamberam os tijolos do moinho? Vale à pena, Caxias?



