Nosso subdesenvolvimento sempre esteve escrito e espelhado nas placas e outdoors. Nos anos 70, criança, no banco de trás de uma Variant 1971, ficava ligado nas evocações das autoestradas. De Caxias a Porto Alegre, nas paisagens mutantes da ERS-122 e BR-116, era um festival de placas de trânsito com erros de português.
A aplicação da crase era uma catástrofe da Língua Portuguesa. Ainda hoje, na mesma viagem, o motorista-leitor poderá cruzar tranquilamente por um clássico do mau uso da crase – “obras à 100 metros” –, sem que o seu pequeno mundo intelectual se agite. De que adianta crasear a realidade com o acento grave da burrice e depois martelar regras de acentuação por longos anos na cabeça dos colegiais?
Talvez a megaestrutura estatal dos órgãos de trânsito nunca tenha previsto em seus quadros – desde os generais dos 70 até a demokratzia atual – um supervisor gramático de gorda aposentadoria ou um singelo professor de português que desse tratamento digno à escrita da nossa língua – esta “última flor do Lácio, inculta e bela”, tão linda e tragicamente definida por Olavo Bilac.
Semelhante acefalia contaminou todas as esferas do poder, dos palácios de Brasília à triunfal República Piratini, chegando aos galpões burocráticos da Pérola das Colônias. Hoje, por exemplo, ao vir para o meu lugar de trabalho, cruzando a esquina da Dezoito com a Coronel Flores, procurei o sinal verde no semáforo vertical. Eis que a sinaleira continua posicionada perfeitamente atrás de uma cartela de propaganda, destas autorizadas pela prefeitura (curiosamente, marketing da escola onde estuda minha filha).
Aí ficamos sem saber se antes veio o ovo podre da publicidade que polui a cidade ou a galinha depenada do planejamento urbanístico e viário público. Se amanhã eu for ali com ferramentas, e reposicionar a placa publicitária, por certo um agente municipal vai me multar ou prender por vandalismo.
Das cartelas vamos aos outdoors, dinossauros sujos e anacrônicos que aqui resistem à qualquer teoria da evolução. Eles seguem nas perimetrais, pisoteiam o entorno do Museu da Casa Pedra. E quando você avista aquela reta singrando os campos na Rota do Sol, a poesia acaba nos painéis que anunciam a caminhonete dos sonhos, o restaurante ou o escritório de contabilidade da paróquia.
Há mais de dez anos a babilônica cidade de São Paulo (modelito que Caxias adora seguir, em termos) resolveu banir os outdoors. Será que algum prefeito destas paragens poderia ir além do espelho e copiar a ideia?


