"I want to ride my bicycle, bicycle, bicycle", eu quero andar com a minha bicicleta – encontro Freddie Mercury de bike pela Jacob Luchesi e vamos cantando "Bicycle race" até São Pelegrino, um rock com pegada de manifesto que a banda Queen gravou em 1978:
"Você diz preto, eu digo branco / Você diz latir, eu digo morder / Você diz tubarão, eu digo hey cara! / Tudo o que eu quero fazer é... bicicleta, bicicleta, bicicleta."
Com seu bigode anacrônico, peito peludo e roupas coladas, voz dos deuses, o front vocal do Queen foi puro gesto e contracultura, ao mesmo tempo em que surfava na onda pop mundial. A bikecultura é algo assim: antiga e ultramoderna, memória e vanguarda, alucinação, realidade, gay, hetero, cis ou transgênero, supermacha, superfêmea.
"Você diz Rolls, eu digo Royce / Você diz Deus me dê uma escolha / Você diz Senhor, eu digo Cristo."
Um vizinho passa de carro e nos olha com rancor. Depois vem o ônibus pela terceira vez nos espremendo, eu e Freddie cantando, entre a beira do asfalto e o cordão da calçada da Matteo Gianella. Abro uma chamada com a empresa de transporte urbano da cidade – só há uma, desde sempre! A resposta, um mero protocolo: "cfe. regras da empresa zelamos pelo padrão de atendimento etc. etc. etc. atenciosamente..." E tudo segue igual na Pérola das Colônias.
"Corridas de bicicleta estão chegando em sua direção / Em suas marcas, posição, vão!"
Diante da notícia de que eu teria outra filha, nova Aurora no meu entardecer que já vai adiantado, a minha mãe sentada no sofá, típica avó escorpiana, profetizou: "agora tu vais ter que largar da bicicleta!". Bah, e agora, amigo Freddie?!
"Você diz John, eu digo Wayne / Cachorro quente, eu digo fica frio cara / Eu não quero ser o presidente da América / Você diz sorria, eu digo xis."
Aí vejo o post de um conhecido que virou "homem público" (bonito clichê, não?), ele em viagem oficial posando no estacionamento de centenas de bikes em uma universidade de Amsterdã, se dizendo muito impressionado que naquela cidade nórdica a população se move de bicicleta. Ora, camarada, não é preciso gastar nosso minguado dinheiro de Estado falido para chegar a esta brilhante constatação – bastaria uns cliques no Google.
"Imposto de renda, eu digo Jesus / Eu não quero ser um candidato para Vietnã ou Watergate / Porque tudo o que eu quero é / Andar com a minha bicicleta."
Ônibus, vizinho, vovó, senhor secretário de Estado – a cultura da bike não faz parte do nosso DNA. Dá-lhe pedal, Freddie.



