Viva o dia mundial da bicicleta! É hoje, 19 de abril. Equilibre-se, na moral. Encara, vai, o vento e o suor, enfrenta o DNA da cidade. Sai da calçada e anda na rua, que é o teu lugar, ciclista. Mas anda na mão e na lógica dos carros, no respeito da regra.
Aqui, bike é contracultura. A motorista do Uno Way verde, plenamente atrasada, vem buzinando na embocadura da Jacob Luchesi, na Casa de Pedra. Passa, cara na janela, me mandando andar na calçada. “Na calçada o kaskalho”, eu grito de volta. E tudo segue seu curso, o teatro bufo alargando a tradição entre dois pontos extremos.
Pega a tua bike com a gana de um neófito. Mas por que hoje? Em um 19 de abril, o químico suíço Albert Hofmann (1906-2008) fez a primeira viagem lisérgica de bicicleta. Hofmann extraia de plantas certos princípios ativos para uso farmacêutico. Ao pesquisar derivados do ácido lisérgico, ele sintetizou o tal LSD (dietlamida do ácido lisérgico). Isso teria sido em 1938. Com a II Guerra, a coisa ficou meio de lado, até que anos depois, voltando ao tema, Hofmann absorveu sem querer na pele dos dedos um pouco da substância. Logo começou a sentir os efeitos do seu bálsamo.
Três dias depois do incidente, 19 de abril de 1943, entre a curiosidade do gato e a ressureição de Jesus, o profeta Hofmann abriria os caminhos da luz ao Led Zeppelin e a mil astros futuros do rock, metendo 250 microgramas do LSD para dentro de si. Vendo que a coisa ia pegando pesado, decidiu sair do laboratório pilotando a sua bicicleta. E foi pelas ruas da Basiléia, até chegar em casa.
Aquela foi a primeira grande viagem do LSD – e foi de bike. A explicação histórica é que havia restrições ao uso de meios motorizados por causa da guerra. Eu prefiro pensar que a energia psicodélica do planeta soprou a favor da bicicleta, este veículo leve e mágico que agora me transporta e que o caminhão-baú do Vale Real vem espremendo pela terceira vez na subida da Feijó Júnior. No sinal, encosto do lado e digo ao motorista que ele ainda não aprendeu quase nada do mundo.
Que esta guerra, escrevi no bikemanifesto da semana passada, recém chegou aqui na Pérola da Colônias, nossa anti-Basiléia. Hoje é bicycle day. Na bike vou para o meu trabalho, vou sendo Robert Plant, Eddy Merckx ou Jimi Hendrix, Janis Joplin, Italo Balen, o Papa Francisco. Andando, posso morrer logo ali. Mas de bike vivo “más al largo que al tanto” – se não erro o dito castelhano. Embora o bom Hofmann parece que morreu de causas naturais, aos 102 anos de idade.




