Inicio aqui breve arqueologia de uma história que andou pela superfície do cotidiano recentemente, ligando a imagem de Santa Bárbara ao episódio da morte de mulheres na explosão da fábrica da Gazola, em Caxias do Sul, no esforço de guerra de 1943.
Em 2010, o Núcleo de Programas Especiais da RBSTV de Porto Alegre me escalou para dirigir um dos episódios da série Guerra e Paz, que abordava o envolvimento do Rio Grande do Sul na 2ª Guerra Mundial. Eu iria investigar a história de um batalhão de soldados vagando nas areias do Cassino, à espera da guerra, em Rio Grande. Mas girei o olhar para nossas paragens basálticas, mirando o episódio da explosão da Gazola. A morte de seis jovens operárias de uma linha de fabricação de bombas e munições, ao sul do hemisfério sul, a milhares de quilômetros do front da guerra, soava algo desconhecido além dos muros da cidade.
Máquinas e engrenagens ainda roncavam nos galpões da Gazola, nos derradeiros espasmos metálicos de uma massa falimentar, confirmando o declínio de nossos devaneios industriais. Acervos da velha metalúrgica dormiam em uma sala: balas de canhão, fotografias, cofres, documentos, uma couraça de tanque de guerra perfurada por projéteis. Entre tantas coisas, quadros e imagens de santas e de santos, testemunhos da tradição católica da região, trasportando para o ambiente fabril as devoções e iconografias das casas e das igrejas.
Nos meandros da fábrica, guiados por Remy Gazola, um dos herdeiros da família, veio à tona a memória de um quadro de Santa Bárbara, pendurado na única parede do pavilhão que teria resistido à explosão de 1943. Idêntica memória foi depois evocada pelo seu irmão, Ivo Antonio Gazola, que, à época da guerra, fora encarregado pela mãe de comprar uma imagem da santa e pendurá-la no galpão onde as moças trabalhavam. Ele teria não mais que 18 anos e estava na linha da explosão; foi o único sobrevivente daquela bancada de operárias.
O depoimento mais arrebatador, entretanto, que me fez curvar a cabeça ao mundo mágico submerso naquele triste acervo de memórias – sugerindo-me então o título emocional do documentário, Aos olhos de Santa Bárbara – veio de Edith Gubert, irmã de Odila Gubert, uma das sobreviventes da explosão, que teve uma perna amputada, vivendo em um quase esquecimento, até a morte. Guardo, tão vivas, as palavras de Edith... Mas esta arqueologia, leitor, fragmentária – tal a memória – continua na crônica da semana que vem.
(A versão curta do filme pode ser vista no sítio www.transe.com.br).



