
O entendimento da nova realidade da guerra, que prevê o uso intenso de drones de combate, é uma das prioridades do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea (3º GAAAe), a unidade do Exército Brasileiro (EB) sediada em Caxias do Sul. E isso foi posto à prova durante a Operação Sagitta Primus, realizada há alguns dias em Formosa (GO), e que contou com a participação de cerca de 50 militares do quartel caxiense.
Além do aspecto militar, a exigência de atualização doutrinária decorre de uma necessidade prática, que é o preparo da defesa aérea para atuar na Copa do Mundo de Futebol Feminino 2027. O 3º GAAAe deve estar envolvido nas operações que envolvem o evento, que ocorrerá entre 24 de junho e 25 de julho e terá jogos em Porto Alegre e outras sete cidades brasileiras.
Sobre a Operação Sagitta Primus, a movimentação da equipe do 3º GAAAe ocorreu entre 24 de julho e 9 de agosto. Entre ida e volta, foram 4,3 mil quilômetros rodados por 12 viaturas, que levaram a Goiás o pessoal e os equipamentos necessários para a participação na atividade. Trata-se do principal exercício anual de defesa antiaérea do Brasil, com um total de 500 militares de 23 organizações militares do EB envolvidos, além de efetivos da Força Aérea Brasileira (FAB).
Pelo papel decisivo que os drones vêm tendo nas guerras atuais, especialmente na Ucrânia e no Irã, o combate a esse tipo de armamento, denominado no jargão militar como Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas (Sarp), foi o tema principal da Sagitta Primus. Assim, novas soluções para a proteção do espaço aéreo foram testadas no Campo de Instrução de Formosa.
As atividades envolveram ocupação de posição, identificação de ameaças, localização de alvos, proteção de pontos sensíveis, camuflagem, monitoramento de espaço aéreo, tiro real e ações de guerra eletrônica. De acordo com o comandante do 3º GAAAe, tenente-coronel Flávio de Paiva Silva, como consequência do exercício e da nova realidade estratégica, uma das deliberações do EB foi que cada unidade especializada em artilharia antiaérea deverá criar uma seção antidrones, o que já está implantação.
— Isso é o nosso foco hoje, pois a antiaérea abarcou essa nova capacidade, que é o anti-Sarp. É uma nova capacidade que todos os grupos terão a partir de agora. A utilização do drone está em voga no mundo inteiro nas guerras mais modernas e a artilharia está focando nessa parte. Por isso a instalação de uma seção anti-Sarp dentro de cada grupo de antiaérea — explica o comandante.
Entre as questões doutrinárias a serem resolvidas está a identificação do material adequado para o combate aos drones, tanto que empresas da base de defesa nacional também estiveram presentes no exercício. Apesar de dispor de um dos armamentos mais modernos do Exército, o míssil RBS 70, de origem sueca, o 3º GAAAe e os outros grupamentos aguardam as diretrizes do comando em relação ao uso de novos equipamentos.
Essa situação tem uma razão econômica, pois em alguns cenários pode não fazer sentido usar um míssil como o RBS 70, cuja unidade custa cerca de R$ 500 mil, para derrubar um drone de valor muito inferior. Por isso, explica o tenente-coronel Flávio, foi testado durante a Sagitta Primus o uso dos canhões do blindado Gepard e de metralhadoras .50 montadas em viaturas Guarani, além de alternativas de guerra eletrônica:
— A gente combate os Sarp de dois modos: o cinético e o não cinético. O não cinético seria a parte de guerra eletrônica, e o cinético é com o armamento mesmo, com fogo. Essas duas direções podem ser utilizadas no combate e a gente está aperfeiçoando, e por isso a importância do exercício. E também tivemos a presença de empresas, inclusive brasileiras, que apresentaram seus produtos, para que o Exército estude e aumente nossa capacidade contra essa ameaça.




