
A crise nas finanças de Caxias do Sul foi o principal tema da entrevista que o prefeito Adiló Didomenico concedeu na manhã desta terça-feira (21) à Rádio Gaúcha Serra. O atual momento, que resultou em situações como o atraso no pagamento de fornecedores, estudo dos impactos de um hipotético atraso salarial e adiamento ou cancelamento de ações administrativas, foi descrito por ele como grave, mas também administrável e superável, desde que que sejam executadas algumas ações imediatas e outras a longo prazo.
As causas imediatas do rombo seriam os gastos excessivos de 2024 e 2025, para recuperação das enchentes, e o acúmulo de despesas, especialmente na saúde, onde ele calcula um déficit anual de R$ 160 milhões. Mesmo admitindo que se trata de um quadro inédito, Adiló fez a ressalva de que o problema gira em torno do fluxo de caixa e não de endividamento, e rechaçou que o quadro seja de caos.
– O município vive hoje, na história dele, talvez o maior arrocho financeiro. Agora, uma coisa importante que se diga, é muito diferente do que a mensagem de pânico que alguns estão passando para a sociedade, que a prefeitura está quebrada. Isto não é verdade. Nós temos uma dificuldade no fluxo de caixa - defendeu-se Adiló.
Entre as medidas de curto prazo está a autorização para buscar emprestados até R$ 490 milhões, que aliviariam a questão dos pagamentos imediatos. Embora este dinheiro não vá ser utilizado diretamente para pagar os servidores, liberaria recursos para evitar qualquer atraso salarial, o que Adiló considera prioridade. O prefeito revelou que o valor cogitado pode até não ser usado integralmente, mas precisa estar disponível para a resolução, possivelmente ainda neste ano, do Caso Magnabosco.
– Talvez a gente não pegue nem um terço disso, mas a gente tem que estar preparado, porque nós precisamos fazer o acordo do Caso Magnabosco este ano. Não tem mais como postergar, e tu não faz acordo sem ter um centavo no bolso. Também temos várias contrapartidas, principalmente no setor de habitação, e inúmeras obras começadas e contraídas onde, normalmente, têm contrapartida do município – revelou.
O prefeito disse que há cerca de duas semanas houve uma conversa com os credores do Magnabosco, e na ocasião foi apresentada uma proposta prevendo o pagamento de um valor à vista, o que encerraria a questão. Ele não revelou valores, mas deu a entender que ficaria abaixo dos R$ 395 milhões acertados em um acordo anunciado em julho do ano passado, mas que acabou não sendo assinado.
Entre outras questões de curto prazo, o gestor revelou que vai seguir reduzindo despesas, cortando horas extras, novos investimentos e ações da gestão. Ele admitiu, no entanto, que essas decisões têm consequências políticas:
– Nós estamos enxugando e pagando um preço muito alto. Veja o que aconteceu agora com os jetons na área da Cultura. Qualquer coisa que tu tenta economizar, o grito é muito grande. Nós vamos continuar este trabalho, mas também buscando recomposição de recursos onde é possível.
Questionado sobre o impacto que o aumento do número de assessores tem na crise financeira, o prefeito descartou qualquer relação entre as situações. Segundo ele, os cargos em comissão foram demonizados durante a gestão do ex-prefeito Daniel Guerra, o que gerou um mito em relação ao peso deles na prefeitura de Caxias.
– Essa é a maior sacanagem que se plantou no governo Guerra. Eu quero que alguém me apresente uma cidade do porte de Caxias, no Brasil, que tenha menos cargo em comissão. Eu duvido, e este desafio está lançado. Caxias tem 227 cargos em comissão, e os que estão sendo exonerados não estão sendo repostos, a não ser cargos técnicos. Não é ali o problema, e a folha de pagamento em Caxias também está dentro do normal – defendeu.
Adiló também apontou a necessidade de algumas ações administrativas de longo prazo, que atacariam problemas estruturais e auxiliaram na dificuldade de caixa. Entre essas questões está a revisão da planta de cálculo de IPTU, a busca de recomposição de recursos na saúde e a análise da situação da previdência municipal. Quanto a este último tema, embora uma reforma tenha sido aprovada em dezembro de 2022, ele entende que o assunto cedo ou tarde voltará ao debate:
– Nós tínhamos duas propostas: uma que resolveria praticamente o problema, mas era bem mais pesada do que essa, e nós não conseguimos avançar. Tivemos que negociar e conseguimos aprovar um meio termo, que evitou que o município atrasasse o salário dos aposentados. Talvez a gente não tenha que fazer uma reforma tão logo, mas em nível de país e de municípios terá que ter reforma muito profunda na previdência, pois a conta não fecha.


