
Ainda no rescaldo da Copa que acaba neste fim de semana, vamos fazer um exercício de memória: voltemos a 30 de junho de 2013. Naquele dia, o Brasil vencia a Espanha por 3 a 0 na final da Copa das Confederações, em pleno Maracanã. A euforia era gigantesca, afinal a seleção canarinho tinha goleado a então campeã mundial. No meio da comemoração, o goleiro brasileiro na época, Júlio César, soltou uma frase emblemática do ufanismo verde-amarelo:
— Com todo respeito à Espanha, mas o futebol tem uma hierarquia. O Brasil é cinco vezes campeão do mundo. Sei que eles respeitam, eles não tiveram oportunidade de jogar contra o Brasil nas competições das quais foram campeões e sabem que contra o Brasil é diferente.
Foi nesse clima que o Brasil não percebeu que tinha vencido, em uma competição secundária, uma seleção decadente, condição comprovada pelo que ocorreu um ano depois, quando os espanhóis foram humilhantemente eliminados na primeira fase da Copa. O delírio ufanista terminou no 7 a 1 para a Alemanha, tragédia que deveria ter servido de advertência de que as coisas andavam erradas.
Ao voltar para 2026, vemos o Brasil ser eliminado de forma melancólica pela Noruega, que embora tenha atualmente um bom time, está longe de ser uma das potências do futebol mundial. Em 12 anos, na comparação com 2014, algo melhorou e aprendemos alguma coisa com o 7 a 1? Certo que não, e uma análise do nosso desempenho e no histórico comprova isso.
Depois do penta, somente uma vez o Brasil chegou às semifinais (onde levou 7 a 1). No mais, eliminações em quartas ou oitavas de finais para seleções que não foram as campeãs. Some-se a isso o desempenho fraco nas eliminatórias e o fato de a seleção sub-20 não ficar entre as quatro melhores do mundial desde 2015. Certamente há muitas causas e explicações, mas eu me arrisco a apontar a mãe de todas elas: a arrogância.
O brasileiro tem, com razão, motivos para se orgulhar da história do seu futebol. Temos, sim, uma história única e grandiosa. Mas achar que isso, por si só, vai garantir que um time se vista de amarelo e automaticamente seja campeão, é de uma empáfia venenosa. Esse sentimento de superioridade não nos permitiu notar que ficamos para trás. E fiz questão de citar acima a frase do Júlio César para mostrar que isso não se limita ao torcedor, pois entra na cabeça dos jogadores e acaba permeando todo o sistema.
O futebol brasileiro nunca foi um primor de organização (e continua não sendo), mas em décadas passadas tínhamos os melhores jogadores, em quantidade e qualidade, o que acabava compensando. Atualmente, produzimos poucos jogadores diferenciados e, a rigor, temos só um que pode ser considerado um pouco acima da média, Vinícius Jr. Os demais são medianos ou bons coadjuvantes, e o fato de termos ficado quatro anos discutindo a convocação de um ex-atleta em atividade como o Neymar só prova o quanto isso é verdadeiro.
No entanto, quem acompanhava as análises pré-Copa não sentia isso, e aí incluo amplos setores da mídia. Poucas vozes disseram que o Brasil não era, por exemplo, favorito em jogos contra o Marrocos e a Noruega, pelo simples histórico recente dessas seleções. O que se via era aquele amontoado de chavões, como “aqui é Brasil”, “o peso da camisa verde-amarela" ou “só nós temos cinco estrelas no peito”. Um oba-oba que só serviu para iludir o torcedor e redundar em mais frustração.
Com a eliminação, vieram as cobranças óbvias: o técnico, o ciclo ruim, quem bateu o pênalti ou o gol perdido pelo Endrick. Essas questões secundárias são mais um sinal de soberba, pois novamente pressupõem que, por peso da camisa ou força divina, podíamos ter ganhado. Não, não podíamos, e se por um acaso tivéssemos passado da Noruega, íamos fazer fiasco mais adiante.
E essa postura arrogante não permite debater as coisas verdadeiramente importantes, como o achatamento dos clubes menores, historicamente os grandes reveladores de atletas, e a formação deficiente. Hoje, o único objetivo é produzir jogadores em escala industrial para exportação apressada, forjando jovens sem identificação com a seleção e a torcida, o que além de nos empobrecer tecnicamente, resulta na postura passiva e acomodada que vimos em campo.
Aprenderemos alguma coisa e vamos começar a mudar de verdade estrutura do nosso futebol? A julgar pelo vídeo institucional da CBF pós eliminação, tenho sérias dúvidas. Primeiro, que nem deveria ter sido feito vídeo, pois é hora de trabalhar e ficar quieto. Depois, pelo conteúdo, com zero autocrítica e tom ufanista repetitivo, cheio de chavões. Quando vejo esse tipo de coisa, fico com a impressão de que 7 a 1 foi pouco...



