
A Secretaria da Saúde (SMS) de Caxias do Sul projetava que a troca de comando nas UPAs da cidade geraria um grande trabalho administrativo. Assim, foi montada uma força-tarefa com a Advocacia-Geral do Município (AGM) e outras secretarias para definir a negociação com o Mão Amiga, fazer as rescisões de contrato dos funcionários e organizar os pagamentos judiciais. No entanto, algumas situações, especialmente com os fornecedores, surpreenderam.
O caso mais marcante aconteceu nesta terça-feira (9). Durante a tarde, o secretário da Saúde, Rafael Bueno, foi avisado de que uma ambulância das UPAs tinha sido retida em um posto de gasolina. O motivo: uma dívida do Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (Ideas) no local, por falta de pagamento de combustível.
— Como souberam que o Ideas estava de saída, retiveram a ambulância e não queriam deixar sair. Reagi dizendo que, se não liberassem, eu ia lá com a polícia. A sociedade pagou por tudo isso, e nós vamos atrás desse dinheiro, mas agora tivemos que correr para resolver as questões emergenciais — revela Bueno.
Os atrasos também atingiram o fornecimento de insumos para atendimento. Segundo Bueno, as UPAs foram recebidas praticamente sem material, inclusive alguns fundamentais, como o oxigênio. Neste caso, ele revela que tem negociado caso a caso, contando com a boa vontade das empresas, ou até improvisando:
— No oxigênio, neste último mês, a conta foi de R$ 189 mil. Fiz uma reunião com a empresa e descobri que faz dois meses que não pagam. Imagina se eu não tenho oxigênio no dia da abertura? E também não havia mais reposição de lençol. Tivemos que pegar do nosso estoque e adaptar a costura para caber nas macas, pois nem isso tinha mais. E, para fechar, a internet das UPAs estava há três meses sem pagamento.
O secretário afirma que vai buscar a restituição dos valores gastos para colocar as UPAs em funcionamento, inclusive no pagamento da rescisão dos trabalhadores, já que o município está depositando o valor em juízo e vai descontar o montante do que deveria ser pago ao Ideas. O instituto, que administrava as UPAs caxienses desde 2025, foi procurado para comentar as declarações de Bueno, mas ainda não se manifestou.
A Associação Mão Amiga assumiu a gestão das UPAs Central e Zona Norte de Caxias nesta quarta-feira (10). A entidade foi contratada emergencialmente, por 90 dias, após a prefeitura anunciar na semana passada a rescisão unilateral do contrato com o Ideas. Segundo a Secretaria da Saúde, uma série de irregularidades tem sido constatada desde janeiro, e após diversas notificações foi possível fazer o rompimento do contrato.
Segundo Rafael Bueno, titular da pasta da Saúde, serão repassados à Mão Amiga R$ 3,205 milhões por mês para a UPA Central e R$ 2,445 milhões para a Zona Norte — os mesmos valores pagos ao Ideas, apenas com correções. Deste montante foram descontados os insumos, que nestes 90 dias serão repassados pela SMS à associação.


