
Professor da UCS desde 1997, Asdrubal Falavigna terá o desafio de gerir a instituição a partir de 3 de maio. Eleito reitor para o mandato 2026-2030 na última semana, ele comandará a universidade em um momento de grandes mudanças sociais e tecnológicas que têm impactado no funcionamento da instituição e do ensino superior em geral, ocasionando queda no número de alunos e necessidade de planejar melhor a utilização do patrimônio existente.
Os planos para enfrentar essa realidade foram expostos por ele durante entrevista à Rádio Gaúcha Serra na manhã desta segunda-feira (23). Aos 60 anos, o médico neurologista e doutor em Neurociências aposta na experiência acumulada nos 21 anos em cargos de gestão da UCS, inclusive como atual vice-reitor, para realizar um bom mandato, e se considera preparado para o desafio. Entre as principais metas, Asdrubal aponta a busca de novas fontes de receitas como a chave para manter a saúde financeira e a relevância da instituição. Confira a entrevista:
Gaúcha Serra: A eleição foi mais disputada do que o senhor imaginava?
Asdrubal Falavigna: Realmente foi uma eleição que saiu dos muros da universidade e foi para a comunidade e, como todas as eleições para reitor, foi bastante disputada. Agradeço a toda a comunidade acadêmica, aos professores, aos funcionários e aos alunos, assim como a comunidade da Serra, os empresários e as entidades do bem que se colocaram no apoio à minha candidatura.
O senhor representa uma continuidade, pois já faz parte da atual reitoria. Qual é hoje o principal desafio da universidade e o que pode ser uma marca da sua gestão?
O principal desafio é algo da educação superior em geral, que é a queda do número de alunos decorrente de uma queda de natalidade e mudanças culturais. Atualmente, 18% da juventude vê necessidade de ter um diploma superior e isso são dados do Brasil, além do envelhecimento da população e toda a transformação digital. Esses são desafios de todas as universidades, e a gente quer mudar esses números, que não sejam 18% e, sim, valores muito mais elevados de jovens que queiram vir para a UCS e ter seu diploma.
Eu vejo oportunidades grandes porque temos excelência acadêmica e também em pesquisa e inovação, vide a incubadora do TecnoUCS inaugurada semana passada. A gente tem a oportunidade de se apresentar para diferentes empresas e entidades públicas para vender outros serviços. Então, se nós temos um desafio grande na graduação, na pós-graduação, ensino de pesquisa e inovação temos ainda um caminho forte a percorrer. Um dos maiores desafios é fazer as conexões com entidades públicas e a indústria, para eles nos conhecerem e a UCS conhecer o que eles necessitam.
Essa redução de demanda acaba se refletindo financeiramente. A UCS já teve mais de 30 mil alunos na graduação e hoje tem cerca de 14 mil. O senhor vai receber uma universidade que tem uma boa condição de caixa? Que a avaliação faz da situação financeira da instituição?
Nós tivemos um momento de queda do número de alunos, mas conseguimos manter constante o recurso financeiro, porque os alunos que vieram pegaram mais disciplinas. Estamos estabilizados no número de alunos em torno de 23 mil (computando graduação, pós e outras modalidades) nos últimos quatro anos, e a gente vem aumentando a receita da não graduação. Não podemos ficar reféns da graduação e das mensalidades dos alunos, tanto que quando a gente começou essa jornada de quatro anos que estamos findando, praticamente 90% da nossa receita vinha da graduação. Hoje nós estamos com 80%, e a gente já projeta que, em dois ou três anos, isso passe a 70%, com os outros 30% vindo de serviços de inovação e pesquisa.
Na região de Caxias nós temos mais de 50 instituições de ensino superior e aí a competição é muito grande. Mas o quadro é outro quando a gente chega na pós-graduação, pesquisa e inovação, e é onde a gente procura diversificar as fontes de receita, pois permitem um modelo de negócio que leva a uma captação de recursos em larga escala, com venda de serviços de conhecimento que impactam realmente a sociedade.
O mercado da graduação vai passar por uma mudança na região, com a chegada da Ufrgs. O quanto isso pode impactar nesse mercado e como a UCS vem se preparando para isso?
Com certeza, a vinda da Ufrgs vai impactar em alguns cursos de graduação, e aí vem o conhecimento da minha vice-reitora, a professora Terciane Luchese, que é a atual pró-reitora de graduação. Nossa estratégia é, cada vez mais, mostrar a excelência acadêmica que temos no nível da graduação, e a nossa venda vai ser pelo valor do ensino integral que a gente propõe na universidade.
Na medida que a gente tenha alguns cursos que vão competir com a Ufrgs, a gente vai ter que avaliar como os alunos vão ter a sua preferência e, provavelmente, alguns cursos vão fechar e outros vão abrir. Mas a gente tem várias estratégias de avaliação local do sistema da graduação, que vai projetar com uma certa antecedência os cursos que nós temos e novos cursos que a gente vai se diferenciar, e isso virá com o tempo. Vamos esperar a Ufrgs vir e a gente vai dando os nossos passos.
Interligada com a concorrência e diminuição de demanda está a questão patrimonial. A UCS tentava, por exemplo, vender o Campus 8 para a Ufrgs, o que não vai acontecer, e em alguns momentos se vê alguns prédios do Campus-Sede não sendo utilizados. A UCS tem patrimônio ocioso?
A gente está entrando com um sistema digital que permitirá uma ideia de densidade muito melhor, com mais informações do estado geral de todos os prédios, disciplinas, números de alunos, valores e etc. Com informações adequadas, a gente conseguirá ter uma resolução das atividades e tomada de decisão, embora tenhamos prédios e salas repletos quando chega o final da tarde e noite.
Então, a gente não tem salas vazias no noturno, e durante a manhã e início da tarde nós temos alguns prédios com estrutura reduzida, e aí é que entra o trabalho que a gente faz com as empresas e indústrias para serem residentes na universidade. Tem salas de aula que estão virando laboratórios e outras que permitem o acesso de empresas para dentro da universidade, justamente para fazer alguma atividade ou projeto tipo coworking. E é bom lembrar que todas as tardes temos o UCS Sênior, que leva 1,2 mil pessoas à universidade.
O senhor mencionou há pouco a questão da venda de serviços como oportunidade. Nesse sentido, qual o papel da UCSGraphene? Essa unidade foi um dos assuntos dessa eleição, inclusive com contestação do papel que essa unidade cumpre hoje na UCS. O que está no horizonte em relação a ela?
A UCSGraphene está sendo remodelada. O que a gente quer é promover um encontro com as empresas que querem conhecer melhor onde o grafeno pode melhorar as condições dos seus produtos. Então, a primeira coisa é uma forte conexão com as empresas. Já tem inúmeras trabalhando hoje, mas a gente quer aumentar. Por isso a UCSGraphene vai ampliar suas atividades e isso vai ser importante para uma melhor comunicação do que realmente o ela está fazendo.
A UCSGraphene hoje é uma unidade superavitária hoje?
Sim, a UCSGraphene hoje é superavitária.
Uma das questões mais debatidas durante a eleição foi a autonomia de UCS perante o Conselho Diretor da Fucs. Como o senhor pretende trabalhar essa questão?
A autonomia responsável é um princípio essencial da existência das universidades. Ela é lei, e assegura imparcialidade e capacidade de articulação, e isso gera confiança pública. A reputação da instituição está extremamente ligada com a autonomia responsável, e isso a gente conquista com muito diálogo. Isso está dentro de um regimento legal e, essa autonomia, justamente na UCS, que é uma instituição comunitária, é um compromisso público, regional, social e cultural. Todos nós ganhamos com essa autonomia responsável da universidade.
Voltando à questão do Campus 8, quais os planos da UCS para aquela estrutura? O que se enxerga de oportunidade no mercado para a venda desse imóvel?
O Campus 8 está no nível da Fucs, recebendo algumas manifestações, sugestões e opiniões. Então, está acima da reitoria toda essa definição e a tomada de direcionamento do Campus 8. No momento, eu não tenho conhecimento de alguma sugestão ou conexão com alguma empresa para o Campus 8.


