
As estatísticas sobre a criminalidade na Serra em 2025 são motivo de comemoração para os órgãos de segurança. Para fazer uma análise dos números, o coronel Ricardo Vargas, comandante do CRPO Serra, e o delegado Augusto Cavalheiro Neto, delegado regional de Polícia Civil, conversaram com a equipe da RBS, e a íntegra da entrevista vai ao ar na Gaúcha Serra nesta segunda-feira (29), às 07h15.
Os números trazem uma queda consolidada em crimes tradicionais, de maior impacto sobre a população, como homicídios e roubos, e mesmo o feminicídio, que aumentou no RS neste ano, teve números estáveis na região. No entanto, há motivos para atenção, especialmente em relação ao crescimento de golpes virtuais.
O número de mortes, um dos mais importantes indicadores de segurança, teve queda, acentuando a tendência iniciada em 2024. Conforme os dados contabilizados pela Polícia Civil até 15 de dezembro, Caxias do Sul teve 39 ocorrências em 2025, contra 75 no ano anterior, uma redução de 47%. Aí estão incluídas situações como homicídios, feminicídios, latrocínios, abortos e mortes em intervenção policial. A baixa também foi registrada na região como um todo, com diminuição de 36%.
Crimes como roubo de veículo (queda de 39% em Caxias e 41% na região) e roubo a pedestre (redução de 26% em Caxias e na região) também ilustram as estatísticas positivas apresentadas pelos órgãos de segurança em 2025. As causas para este bom momento, de acordo com os comandantes, são variadas. A integração do trabalho entre órgãos de segurança, uso de inteligência e foco nos crimes que mais impactam a sociedade estão entre as explicações apresentadas.
O coronal Vargas ressalta que, mesmo em um ambiente aparentemente mais tranquilo, é feito um acompanhamento constante dos índices, a fim de atacar situações que eventualmente saiam de controle. Como exemplo ele aponta o furto de veículos em Bento Gonçalves, um dos poucos indicadores que teve alta – 11% em comparação a 2024. A partir do momento em que se detectou um crescimento na metade do ano, o militar explica que uma ação específica de combate foi desenvolvida.
– Nós trabalhamos muito com dissuasão focada, e temos essa estratégia naquele crime do qual, para nós, decorrem os demais, que é o tráfico de drogas. Isso funciona bastante com apoio da Polícia Civil, e em Bento Gonçalves, por exemplo, vem sendo feito. Para se ter uma ideia, na Serra foram retiradas mais de 400 armas de fogo só esse ano. Então, todo dia se retira arma de fogo, e isso é sinal de contenção do crime – explica o comandante do CRPO Serra.
A melhora estrutural e de pessoal também é apontada como um fator que tem auxiliado no trabalho. Vargas ressalta o investimento feito pelo Estado em novos equipamentos e viaturas semiblindadas, o apoio dado pela comunidade por meio do Programa de Incentivo ao Aparelhamento da Segurança Pública (Piseg), onde empresas doam valores para aplicação nas unidades de polícia local, e sistemas de monitoramento avançados, como o Centro Integrado de Operações (CIOp) instalado pela prefeitura de Caxias. O delegado Cavalheiro também vê melhorias na área estrutural, mas reconhece que ainda há algumas questões a serem resolvidas no âmbito da Polícia Civil.
– Hoje a nossa maior carência é na questão dos prédios, que são antigos e carecem de manutenção, mas isso já vem sendo tratado junto ao governo do Estado. E em Caxias do Sul também temos que aumentar as arrecadações do Piseg. Por incrível que pareça, para a Polícia Civil, Caxias do Sul ainda está atrás de vários municípios menores, como Veranópolis, Farroupilha e Carlos Barbosa, que colaboram muito mais para as suas delegacias. Isso é um desafio para 2026 – aponta o delegado regional.
Golpes e feminicídios seguem como desafios
Apesar das estatísticas positivas no que se refere aos crimes mais tradicionais, o número de golpes virtuais é uma preocupação para os órgãos de segurança. Embora sem estatísticas consolidadas, há uma percepção de grande aumento na quantidade de ações de estelionato, e o delegado e o coronel concordam que é necessária uma nova abordagem em relação à questão.
O maior uso de inteligência e tecnologia, aumento de penas para os golpistas e mais esclarecimento para a população são apontados como temas urgentes no combate à nova realidade. Ricardo Vargas também entende o fenômeno como uma reação dos criminosos, que com o aumento da repressão policial têm migrado para atividades menos arriscadas.
– Tanto eu quanto o delegado Cavalheiro já temos mais de 30 anos de polícia, então a gente sabe que o crime não vai parar. Ele vai se moldar e a gente vai ter estratégias para combater, e ele vai procurar outras vertentes criminosas para ocorrer. E os golpes e a questão dos falsários são modalidades que vêm tendo elevação – admite o coronel.
Em relação ao feminicídio, os números na região ficaram estáveis, mas abaixo da média do Estado, onde houve crescimento deste tipo de ocorrência. Entre as principais cidades, Caxias registrou redução (uma ocorrência em 2025, contra três em 2024) e Bento Gonçalves teve aumento (duas em 2025, contra nenhuma no ano anterior). Apesar da estatística melhor do que a realidade estadual, o delegado Augusto Cavalheiro ressalta a necessidade de maior atenção das polícias e da sociedade em relação ao tema, pois é um tipo de crime que ele considera inaceitável.
– A gente ainda não chegou no tão sonhado número zero, pois tivemos um feminicídio em Caxias do Sul durante o ano. Infelizmente em Bento nós tivemos aumento, pois saímos do zero para dois, um aumento pontual, mas que preocupa, e em Farroupilha nós mantivemos o zero. A estratégia tem que ser muito com base na prevenção e na conscientização das pessoas, dos familiares e dos vizinhos, mostrando que em briga de marido e mulher, a gente mete a colher sim. A gente tem que denunciar e deixar que as polícias façam depois o filtro necessário – defende o delegado.


