
Um dos assuntos mais debatidos e desafiadores dos tempos atuais é o ponto de partida para a 11ª edição do Encontro de Gigantes, que vai ser realizado às 8h da próxima quarta-feira (12) no Conexo, hub de inovação da Randoncorp. Com o tema Como a Inteligência Artificial Potencializa os Negócios da Serra, o evento vai ter como painelistas André Leite, José Masiero e Pedro Bocchese, eu serei o mediador, e não há mais ingressos disponíveis.
A febre de uso da inteligência artificial e a discussão sobre suas aplicações e consequências entrou no debate público nos últimos anos, especialmente após o lançamento do ChatGPT no final de 2022. Em resumo, este e os softwares semelhantes, por meio de pesquisas em amplos bancos de dados, respondem rapidamente a demandas dos usuários, mas com características mais amplas que as tecnologias anteriores, podendo reproduzir habilidades humanas como aprendizado, raciocínio, planejamento e resolução de problemas.
Com este tema muito presente no dia a dia, a curiosidade pessoal e a necessidade profissional foram os motores que levaram o médico e diretor-presidente da Unimed Serra, André Leite, a se aprofundar. O entendimento de que a pessoa que não souber usar esta tecnologia ficará fora do mercado fez com que ele finalizasse um curso sobre IA generativa no Massachusetts Institute of Technology (MIT), e tendo outro, sobre IA agêntica, em execução, tornando-se um apaixonado pelo assunto.
Embora a IA já começasse a ser utilizada na medicina nos anos 1990, com prontuários eletrônicos, André pôde compreender as enormes possibilidades que a nova realidade trouxe para a profissão. Hoje já é corrente o uso em aquisição de imagens e suportes a laudos e diagnósticos, além de potencializar as pesquisas no setor, atuando na organização e processamento dos dados, liberando os pesquisadores para focarem na análise e interpretação dos números.
Na linha de frente da medicina também há um crescimento da aplicação das IAs, como no auxílio na detecção de mudanças de padrão de saúde e comportamento de pacientes, o que permite a antecipação de desenvolvimento de problemas de saúde. Neste cenário, André vê como possível, em um futuro próximo, passos mais ousados, como uma cirurgia feita por um robô comandado por inteligência artificial. Ele pondera, porém, que ainda há questões a serem resolvidas.
— Eu acho que isso vai acontecer em um prazo relativamente curto. Na China já tem descrição de uma cirurgia de vesícula feita em modelo animal de forma autônoma, sem interferência humana. Mas a gente tem as questões de cibersegurança, de tráfego de dados. Na Alemanha a gente teve o caso de um hacker que matou alguns pacientes, ao entrar e alterar um sistema de infusão de drogas. É um universo fascinante, mas que também traz alguns receios — ressalta.
A formação de bancos de dados mais completos e confiáveis tem sido uma das ações fundamentais para melhorar o desempenho das IAs, e isto também tem ocorrido na medicina. André Leite cita como exemplo os dados de robôs que fazem cirurgias comandados por humanos em todo o mundo, e que hoje são imediatamente transmitidos e armazenados, e serão a base para uma ação mais autônoma no futuro. Ainda assim, ele aponta um longo caminho a seguir, pois as IAs ainda vão precisar, por algum tempo, da supervisão humana:
— Tem riscos e a IA ainda precisa de curadoria, porque ela sofre de duas questões chamadas de vieses e alucinações. No primeiro caso, o problema está no fato de que ela incorpora e utiliza o viés humano que aprendeu e não faz um juízo de valor, sem avaliação crítica. E quanto às alucinações, a questão é que essas IAs trabalham com bancos de dados, e se lá está um dado ruim, vai sair um produto ruim. A IA erra também, e isso são coisas que precisamos estar atentos.
Aplicação de novas tecnologias exige preparo e paciência
O entendimento sobre o como a IA vai superar dificuldades e se integrar no processo produtivo das empresas é uma questão bastante analisada por José Masiero. Ele tem mais de 15 anos de experiência no setor de inovação e atua como gerente de inovação sênior na DB, empresa referência em design, construção e sustentação de produtos digitais, e que faz parte da Randoncorp.
Masiero ressalta que, embora o conceito de funcionamento da Inteligência Artificial já estivesse consolidado há décadas, foi apenas há cerca de 10 anos que houve condições técnicas, com o avanço da computação em nuvem e das redes de transmissão, para o uso pleno da tecnologia. A partir daí o avanço foi muito rápido, desembocando no atual momento, onde há uma ampla oferta de serviços de IAs generativas.
A empolgação fez com que as empresas começassem a fazer investimentos na tecnologia, com a expectativa de que ela fosse resolver tudo. Embora já haja aplicações práticas e muita perspectiva de crescimento, Masiero ressalta que as empresas precisam ter cautela. Como ilustração, ele cita uma frase clássica do futurista Roy Amara, e que ficou conhecida como a Lei de Amara:
— A gente superestima a tecnologia a curto prazo, e subestima a longo prazo.
Essa máxima expõe a necessidade de que, embora haja uma corrida inicial para o uso de tecnologias inovadoras, o aprendizado é historicamente lento e custoso, e não vai ser diferente no caso da IA. Assim, conforme Masiero, é necessário resiliência e aprimoramento técnico das empresas, para que frustrações iniciais não prejudiquem a curva de evolução natural, que vai se desenvolver na lógica de tentativa e erro.
— Os dados de pesquisa mostram que o sucesso de projetos com IA ainda é baixo. Isso passa por um desentendimento da tecnologia e do que ela é capaz de fazer. E aí está tendo um problema de retorno sobre o investimento, de forma bem geral nas indústrias — afirma Masiero.
Consequências sociais do uso da IA exigem reflexão
As empresas identificarem a necessidade de uso da IA e se prepararem para isso é um tema que está no dia a dia de Pedro Bocchese. Head de dados e IA na Processor Soluções e pós-doutor com estudos em modelos discriminativos e generativos, ele tem 29 anos de experiência na área de TI e 23 de docência.
Ao longo desta trajetória, ele tem visto como a evolução tecnológica tem impactado negócios, e cita os algoritmos de recomendação, que direcionam as pessoas a assuntos e produtos de seu interesse, como exemplo de aplicação madura da IA, com resultados como o da Amazon, onde 35% das vendas já são oriundas deste processo. Para chegar a usos mais assertivos dessa tecnologia, porém, Bocchese ressalta a necessidade de as companhias terem consciência de que resultados não vêm do dia para a noite, e que é necessário se preparar.
Uma dessas tarefas básicas, segundo ele, é a composição de um repositório central de dados da empresa, onde informações extraídas de variadas fontes internas e externas serão a base para explorar o máximo das capacidades do software de IA. Mesmo assim, ele considera que este processo ainda está iniciando na maior parte do mercado.
— Empresas precisam entender a tecnologia, conhecer ela e saber o que pode resolver. A partir disso fazer um processo de nivelamento, especialmente com executivos e gerentes, e depois ir para os níveis operacional e de entrega da ferramenta. Assim haverá consciência do uso, inclusive dos aspectos legais e éticos. É um processo que está apenas começando, e eu diria que 10% das empresas já iniciaram, 50% estão pensando e 40% nem isso ainda — informa Bocchese.
Apesar de trabalhar na aplicação da IA nos negócios, Bocchese é mais um dos diversos especialistas que têm mostrado preocupação com os impactos do uso dessa tecnologia para a sociedade. Ele vê como realidade o conceito de que temos, cada vez mais, “humanos robotizados e robôs humanizados”, e defende que, além de enfatizar os benefícios econômicos, precisamos também pensar sobre os variados aspectos comportamentais que estão surgindo:
— Estamos usando a tecnologia como piloto automático, e não como co-piloto. Estamos deixando a IA e outras tecnologias nos levarem, e eu entendo que isso seja a principal preocupação em nível social e humanitário. Se nós não conseguirmos fazer esse processo de revisão do entendimento, de que a tecnologia é um meio, e não um fim ou início, nós teremos ali na frente um problema muito sério, de uma classe considerada inútil dentro da sociedade.





