
O debate sobre o orçamento de Caxias do Sul para o ano que vem e a possibilidade das contas do município fecharem 2025 com um déficit de R$ 80 milhões tem ido por um caminho estranho e perigoso. Uma das justificativas apresentadas pelo prefeito Adiló Didomenico para a falta de recursos seria um aumento dos gastos com serviços públicos ocasionado pela grande demanda trazida pela presença crescente de imigrantes.
Essa situação estaria sendo sentida principalmente nos setores de educação e saúde. Segundo o próprio prefeito, 2 mil crianças teriam entrado na rede municipal de ensino após o término do período de matrículas, e de 50 a 100 cartões SUS estariam sendo emitidos por semana no município. Não duvido dos números, pois qualquer um que circular pela cidade vai notar a grande quantidade de estrangeiros que trabalha no comércio, por exemplo.
A questão, no entanto, é que isso não é, e nunca foi, um problema para Caxias. Qualquer um que conheça minimamente a história vai saber (ou deveria saber) que é assim há 150 anos, quando chegaram aqui os primeiros imigrantes vindos da Itália. A partir daí, levas de pessoas de todas as origens e etnias se transferiram para cá continuamente e colaboraram com nosso desenvolvimento, pois a mão de obra delas foi o motor da riqueza que vemos hoje. Contribuição dada, inclusive, pelo hoje prefeito Adiló, nascido em outra cidade e que veio fazer, de forma brilhante, a vida aqui.
Além disso, não se pode esquecer que essas pessoas, embora demandem os serviços públicos para elas e seus filhos, contribuem de várias formas para a cidade. Cada carteira assinada aqui gera riqueza e impostos que acabam revertendo para o poder público, além de fazer girar a roda da economia com o consumo. Também é preciso pensar no mercado de trabalho: se hoje os empresários já se queixam da falta de mão de obra, imagine o que seria sem os imigrantes...
Atender às necessidades criadas pela chegada dessas pessoas é fácil? Óbvio que não, mas é parte do jogo e obrigação de quem está no comando. Ao longo do tempo, as sucessivas administrações acharam alternativas, e me arrisco a dizer que foram enfrentadas situações muito mais difíceis que a atual. Para se ter uma ideia, entre 1970 e 1980, segundo o IBGE, a população de Caxias cresceu em 75 mil pessoas, um dado que, em números absolutos e principalmente em percentuais, é muito maior do que vemos hoje. E nem por isso a cidade se fechou e deixou de atrair mais gente.
E é preciso alertar para os perigos que essas justificativas carregam. Tenho certeza de que não foi a intenção das pessoas ligadas à atual gestão, mas colocar na conta de imigrantes problemas de uma cidade, estado ou país pode soar a xenofobia, alimentando preconceitos que, infelizmente, seguem presentes em pleno século XXI.
Portanto, espera-se que as autoridades tenham mais cuidado e responsabilidade ao tratar do tema. Por respeito à história da cidade e por um mínimo de humanismo, todos precisam deixar bem claro que a imigração não é um problema.


