
Na última quarta-feira (16) a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) de Caxias do Sul fez uma conclamação à população, para que os grupos prioritários procurem as UBSs e façam a vacina contra a gripe. Foi um comunicado curioso pelo teor, suplicando para que as pessoas se vacinem, mas que se justifica pelos números apresentados, e nos força a fazer uma reflexão.
A justificativa para a conclamação é o fato de que apenas 47,98% do grupo prioritário, formado por idosos, crianças e gestantes, vacinou-se até este momento contra a gripe. A meta era imunizar ao menos 90% destas faixas, um objetivo que até cinco ou seis anos atrás era alcançado com certa tranquilidade. A secretaria pede que o público-alvo, mesmo com o atraso, faça a vacinação, pois estamos apenas na metade do inverno e a proteção fornecida ainda será importante neste ano.
Uma das consequências dessa situação é a alta nos números de contaminação por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). De acordo com dados da SMS, neste ano Caxias já tem 94 óbitos com esta causa, inclusive superando a Capital, que registrou 88 mortes no período. Em entrevista sobre o assunto na quinta-feira (17), no Gaúcha Hoje, a secretária-adjunta de Saúde, Daniele Meneguzzi, foi perguntada sobre os motivos que levaram a estes números baixíssimos de vacinação.
– Muita fake news e muita desinformação, e todas as vacinas acabaram desacreditadas pela população. Tanto que, até o ano passado, nós não estávamos atingindo as metas das nossas crianças, em vacinações que estão no calendário há 30, 40 anos. E a gente ouve muito dos pacientes, lá na ponta, que foi por conta desta polêmica que se criou ao redor da vacina do Covid, e que acabou estendendo essa descredibilidade para outras vacinas – respondeu Daniele.
Essa conexão entre os fatos não chega a ser uma novidade, mas ganha força extra ao ser dita por alguém que está na linha de frente do trabalho com a saúde. E aí precisamos refletir sobre os danos causados pela irresponsável campanha antivacina feita durante a pandemia, e entender o tamanho do mal que foi feito ao país.
Por interesses politiqueiros de alguns e falta de inteligência de muitos, a partir de 2020 foram espalhadas (e alguns que seguem divulgando) montanhas de bobagens sobre as vacinas produzidas para combater a Covid-19. Embora houvesse a desculpa furada de que se falava apenas sobre os imunizantes desenvolvidos para enfrentar a pandemia, o fato é que a odiosa campanha atingiu em cheio a vacinação em geral, provocando medo e confusão, e prejudicando uma das frentes onde o SUS era mais eficiente.
Isso explica muito do que vemos atualmente, com os baixos índices de imunização provocando aumento do número de óbitos e maior ocupação de leitos, pois as pessoas sem proteção tendem a ter gripes mais graves. Os dados da SMS comprovam isso, pois mostram que 86,7% dos contaminados com o vírus Influenza não estavam vacinados. O resultado, além do sofrimento trazido pela doença e pelas mortes, é um gasto maior dos escassos recursos públicos, com necessidade de mais investimento em leitos hospitalares.
E qual a saída? Primeiramente, uma adaptação dos órgãos públicos à nova realidade, com investimento e mudança nas ações de vacinação. A busca ativa das pessoas e a presença efetiva de vacinadores em locais de grande circulação vai ser cada vez mais necessária.
E paralelamente é preciso retomar a confiança das pessoas nas vacinas. Já conseguimos no passado e podemos fazer de novo, por meio de campanhas mais intensas, onde se divulgue os benefícios e se combata com clareza as mentiras. Com isso e mais um pouquinho de sabedoria, para não cair novamente na conversa de políticos ineptos e demagogos, poderemos voltar a comemorar índices de vacinação que já foram referência para o mundo todo.

