Não lembro bem a idade que tinha, mas estava ainda no Ensino Fundamental quando fomos visitar o planetário na capital. O professor que nos recebeu nos contou, sem qualquer emoção aparente na voz, pelo que me lembro, que em mais ou menos um bilhão de anos o Sol se tornará mais brilhante do que é agora e que isso, provavelmente, fará nossos oceanos evaporarem e que a superfície do planeta Terra se tornará tão quente que irá derreter. Que o Sol irá se transformar numa estrela gigante e que ao expandir-se vai nos engolir e que qualquer resquício humano será absorvido completamente. Obrigado por visitar o nosso planetário, a saída fica logo adiante. Há pelo menos 40 anos tento me recuperar desse dia. Verdades duras ditas assim, de modo cru, impactam profundamente. Tenho lido muito sobre o fim do mundo, ou melhor, como habitar um mundo em ruínas.
Estudiosos do Antropoceno dizem que o fim da humanidade é iminente. De certo modo, quantos de nós não ficam na torcida para que um novo meteoro volte e tenhamos de recomeçar tudo outra vez, porque o que fizemos até aqui não deu muito certo? Sou uma sonhadora, é fato, a esperança em mim chega a ser ridícula, mas às vezes me sinto muito cansada. Basta abrir uma rede social, o jornal, ler uma notícia, uma crônica e voilà, o fim do mundo já chegou e nem percebemos.
Fico pensando como podemos vivermos diante de tamanha degradação da verdade, mentiras, arrogância, falta de conhecimento, preconceitos. Vivemos a cultura do individualismo, da competitividade, da insuportável performance, do ultrapassado progresso, do falso desenvolvimento e da falta de interpretação de texto e leitura. Além da falta de consciência de classe. Uma sociedade que tem sido cada vez menos assombrada pela culpa, sim, falta sentir-se um pouco mais culpado pelas coisas que se diz dos outros, responsabilizar-se pelas mazelas que cria ao redor, e mais pela ansiedade. Vivemos lado a lado de gente que prega respeito às regras e leis e regulamentos, mas que nutre uma crença interna de que nada disso vale para si.
Mas nem tudo é desolação, mesmo sabendo que a saída não é logo ali na frente. É fato que vivemos uma grande cruzada de valores e de ética e que estamos diante de uma grave crise civilizatória, pois ao mesmo tempo que se tem tanto acesso às tecnologias, há um retrocesso da capacidade cognitiva e humana. Penso nos feminismos, do passado e do futuro, tão açoitados pela falta de entendimento, e no quanto conquistaram a possibilidade de termos direito à voz, mesmo que algumas de nós a usemos para dizer bobagens. É o fim.



