Apesar do dia ter apenas 24 horas, guarda uma capacidade, quase ficcional, de durar muito mais. Ou muito menos. É como se dentro dele pudéssemos avançar e recuar incontáveis vezes. Ir para frente e para trás. De qualquer forma, há pelo menos um ponto fixo. Algo que rodeamos, contornamos, circulamos, insistentemente. Feito beija-flores, batemos as asas ininterruptamente sem sair do lugar. Minúsculo, faz um esforço frenético para ficar exatamente ali, imóvel. Pode parecer poético, mas não podemos negar que é uma energia imensa a serviço da paralisia.
Às vezes ficamos exatamente assim. Inertes. Nos recusando a avançar, a deixar para trás. Nos apegamos a histórias mal resolvidas, mágoas e ficamos ali, remoendo, feito ruminantes. Mastigando a coisa toda sem engolir ou cuspir. E, assim, o dia, a semana e os anos passam. Ficamos sustentando o não resolvido, esperando que a outra pessoa venha pedir desculpas ou se explicar. Deve ser isso que os pássaros engaiolados sentem. Que tristeza bater as asas sem nunca sair do lugar. É claro que podemos escolher fazer diferente, mas escolhemos não escolher. É como se uma parte, meio obscura nossa, não quisesse que a coisa se resolvesse. Então alimentamos a cena, voltamos a ela, discutimos mentalmente, pensamos jeitos de dizer, sofremos, insistimos no sofrimento, como se ele nos desse um lugar privilegiado, o de quem foi injustiçado e espera pela reparação compulsória. Somos o réu, o advogado e o juiz, todos em causa própria.
Escolher sair disso sem a solução esperada é mais difícil do que parece. Eu sei. Daí, escolhemos viver no impossível. Sim, porque talvez a coisa nunca se resolva, não da maneira que desejamos. Então ficar imóvel é uma falsa ideia de que teríamos algum tipo de chance. Talvez seja estranho isso, mas ao não abandonarmos determinadas esperas mantemos um certo controle sobre os fatos. E isso mantém o desejo vivo. Ficamos perto sem tocar. Batemos nossas asas, parados no mesmo lugar.
Fico me perguntando, quando vejo isso acontecer, sobre o que de fato foi perdido? Sabe, esse sentimento, afeto ou coisa que não sabemos que nome dar, que trouxe muita satisfação e que, perdido, jamais será encontrado? Enquanto ficamos nisso, tudo permanece intacto. Algo se sustenta neste etéreo imóvel. Não tocamos no assunto como se ao fazer isso, algo se mantivesse sem quebrar. O fato é que já foi quebrado. A coisa não existe mais como tal. É que olhar para isso é encerrar um ciclo, um desejo, uma espera. É bater as asas e avançar rumos a outros céus.




