Tem dias que o pensamento respira saudades. É como se um pedaço da gente pudesse voltar naquele momento bonito que ficou para trás. Um colorido antigo, feito fotografia desbotada se reconstrói em nossa memória e nos carrega de volta. Uma dança no meio da cozinha, o sorriso do filho ainda pequeno, a festa de aniversário da mãe, o Dia dos Pais, o som da gaita de boca. Meu pai tocava vários instrumentos. Lembro dele com um bigode enorme soprando na gaitinha de boca que ia de um lado a outro. Eu achava o máximo. Ele puxava uma cadeira para a beira da porta de entrada da casa. Sentava e eu me sentava no degrau perto dele. Começava a tocar e ele me dizia para fechar os olhos, escutar a música e imaginar como seria meu futuro. Eu era só uma garotinha de regata do Pluto e nem sabia o que era o futuro. Mas fechava os olhos e dançava. Jamais imaginei que meu futuro seria sem ele aqui.
Domingo, enquanto cozinhava, um som de gaita de boca atravessou os anos e me encontrou fazendo o jantar. Harvest Moon de Neil Young tocava. Fui arremessada para aquela escada na entrada da casa da infância. Uma casa azul e hoje distante no tempo. Fechei os olhos como meu pai dizia. Uma garotinha de regata me encontrou no meio da cozinha. Dançamos juntas entremeando passado, presente e futuro. O bigode de meu pai escondia sua morte anos depois. A gaita tocou uma melodia de saudades tão profunda quanto o azul da casa que não existe mais. A música me lembrou de um tempo em que na rua poucos carros passavam e que as tardes eram vagarosas.
Domingo foi um dia sem ele, mais um desde a sua partida. Apesar de já fazer alguns anos ainda é estranho pensar que nunca mais o verei de novo. Queria poder contar para ele que fui escolhida para ser a patrona da Feira do Livro deste ano. Mas já não dói como antes. Agora é uma espécie de saudades que vem assim, quando menos se espera. Uma saudade que chega no meio do jantar sendo preparado e se instala entre as louças da pia, ali entre a cebola cortada e o fogo por acender. Que chega junto de uma garotinha de regata que se instala na minha frente e me pede para fechar os olhos e dançar com ela uma música que tem uma gaita de boca, igual a que o pai tocava e daí, o coração aperta.
Aos poucos volto a respirar. Não ficamos inconsoláveis para sempre. O buraco da perda permanece ali, mas algo remanesce. Então, eu e a criança que fui, depois de dançarmos de olhos fechados, sorrimos uma para a outra. Ouvir o som da gaita de boca nos faz perpetuar nosso amor por ele. Nos faz perpetuar um amor do qual não queremos renunciar.

