Uma dose de amnésia e duas de desapego, por favor, relembro de Caio. Às vezes é isso. Ou quase sempre. Essa coisa de viver perto do outro, em sociedade. Essa coisa de ter de aprender a tolerar o diferente sem querer acabar com ele. Não é fácil. Todo mundo já teve ímpetos de tentar silenciar aquele que pensa diferente. Ter ímpetos é diferente de fazer. Quando é feito, bah, que coisa horrível. Fazer a coisa ruim como se fosse boa. E tem gente que acredita. No início eu achava que era ignorância. Ah, vai ver o sujeito faz o que faz porque não sabe, nunca leu, parou de estudar, fica demais no TikTok, mas devagarinho a gente descobre que não é isso, não. Tem uma certa fachada de ser espertalhão, sabe? “Oportunista” é o nome correto, gramaticalmente falando. É, tem gente que é assim, vive de surfar na onda do outro. O outro, este que geralmente é o diferente, aquele que não se aceita porque pensa diferente. Mas o que a pessoa não se dá conta é que não surfa nada, nem jacaré faz. E garanto que me lê e fica boiando: animal-humano, boi. É.
Caio tem umas coisas bonitas. Gosto demais dele. Sempre volto para ele quando preciso me afastar da desgraça do mundo. Faço um exercício em busca de silêncio e inteligência. Talvez um pouco de ternura, também. Daí gosto de dois lugares, o jardim e os livros. Num observo o mundo minúsculo dos insetos. Faço fotografias macro daquilo que mal vejo. Ampliar ajuda a compreender a complexidade do quase invisível. É preciso paciência, uma boa lente e desejo de conhecimento de outros mundos, além do próprio umbigo para registrar e dilatar aquilo que nem fazemos ideia que existia. É um exercício de humildade. Há tanto de invisível no visível. No outro, tem Caio. Tem poesia e prosa. Tem um jeito de dizer que eu queria aprender também. Essa belezura de usar as palavras fora da caixa, entende, um jeito de dizer díspar que chama o outro para tentar entender o que está sendo dito. Acho isso lindo demais. Uma escrita em roda. Um dizer cheinho de avessos.
Só fico triste porque as notícias dizem que, pela primeira vez, temos mais não leitores do que leitores. Ah, isso é um perigo. A falta de interpretação de texto gera violência. Se o sujeito não entende metáfora, ironia, metonímia, vira um onomatopeico. Não há comunicação e entendimento com grunhidos. A maldade se alimenta disso. Mas eu sou uma pessoa de fé. Aprendi isso com meus pais. Uma parte de mim também sonha com a justiça cósmica ou que as pessoas vão conseguir ter a tal coerência no final de todas as coisas. Esquecer e desapegar são dois bons verbos que ajudam a não nos perdermos diante do fim do mundo.





