Hoje faço 50 anos. Eu poderia escrever sobre várias coisas, afinal já vivi meio século de vida, e assunto não me falta, mas pela primeira vez, em décadas, não quero falar do medo que guardo do futuro nem do passado e das coisas que vi, vivi e sobrevivi. Pela primeira vez quero apenas estar nesta terça-feira sem desejar que fosse sexta, para chegar ao fim de mais uma semana de trabalho e estudo e, finalmente, descansar. Sem, tampouco, desejar que fosse um feriado para pausar a engrenagem do sistema e ter um respiro em meio às cobranças. Não, nada disso. Quero apenas me sentir terça-feira, bem assim, sem glamour algum, sendo uma pessoa comum com uma vida comum e com demandas comuns. Ser terça-feira sem a angústia de já ter sido segunda por muitos anos de minha vida. Num tempo de construção de nome e carreira e, sonhos e conquistas e, desafios e impossibilidades. Também já fui domingo, cheia de tédio e frustração porque domingo antecede a segunda e aí a semana recomeça, me atirando de volta à angústia de ser o que eu preciso ser para poder ser sem precisar. Claro, confesso sem pudor algum que também já fui sábado, quando era jovem, cheia de música, amigos, noites de festas e dança até as 6h da manhã. Mas isso faz tempo, hoje só vou a algum show se puder ficar sentada.
Da minha primeira vez neste mundo fui quarta-feira. Minha mãe conta que era frio e que na noite anterior havia tomado uma sopa de feijão deliciosa. Deve ser por isso que este é meu prato favorito. Nasci no meio de semana, entremeio entre os dias, entre um quase lá e um já foi. Sensação essa que acompanha a vida toda, entremeada.
Mas hoje, especialmente hoje, amanheci terça-feira e, aos poucos, descubro que o que quero é começar pelo avesso, a desfiar o que fiei, a me desconstruir. Chego naquela idade em que olho e sei que o que tenho pela frente é uma estrada menor do que aquela que percorri até aqui. Aquela idade em que é hora de fazer as pazes com tudo aquilo que foi e não será diferente. Todos carregamos histórias que tentamos reescrever até que um dia é terça-feira, um dia sem destaque algum no calendário e você descobre que é seu aniversário e que o mundo gira independentemente de se existir ou não e, apesar da real constatação, saber disso não é mais tão ruim quanto já foi.
Aquela idade em que se é a própria travessia. A ideia de que nem tudo precisa ser feito. Que, talvez, seja o contrário, algumas precisam ser desfeitas. Não é mais uma questão entre ser ou não ser, mas de nos aliarmos aos entremeios, pois é ali que existe o transbordamento.
Por isso, hoje só quero ser terça-feira.



