Escrever para e não sobre. É isso que me atravessa quando sento para escrever, mas se são crônicas, penso no leitor. Ser o correr do tempo é diferente do que ser ao correr do tempo. Enquanto um é fatalidade, outro é finalidade. A escrita junta em mim o que tem dentro com o que tem fora. Me sinto correndo o tempo, presa nesse gerúndio avassalador que me arrasta, mesmo quando não desejo. Talvez esta seja a defasagem entre mim e o instante. Esta coisa minúscula e sem nome, que reside no meio do que sou e do que nunca serei. Mas sei que existo quando escrevo.
Existo quando sou lida. Sei disso quando recebo e-mails de leitores, ali sei que é real e que não é somente algo que existe em minha própria cabeça. Porque em mim habita uma solidão cósmica, desde criança. Nasci com dor no céu da boca. Culpa do fórceps, disseram. Dali em diante a palavra foi mais escrita que falada. Aliás, tenho dificuldades para falar, embora ache que disfarço bem. Mas sei que só sou de fato quando escrevo. E sempre dou um jeito de me fazer entendida por aqui.
Escrever não é coisa fácil. Sinto como se perseguisse a própria sombra. Meu pai se ria quando me via fazendo isso. Quando falo nele, hoje, sei que não há mais separação entre os momentos e os lugares, nem entre o tempo e o espaço. Foi ele quem me ensinou que não somos nós que vivemos a vida, mas ela que vive em nós. Envelhecemos porque o tempo nos atravessa e não o contrário. Assim, sou vivida pela vida. Somos. Escrever é doar a nossa solidão ao outro. Às vezes somente escrevendo se tem consciência das coisas. Uma consciência extrema sobre vida, morte, amor, tristeza.
A escrita é o desenho da sombra. E escrever é sempre escapar de mim mesma. Procuro, desde muito, um modo de escrever que me atravesse e desperte para algo que busco constantemente sem nem mesmo saber o que é. É estranho, eu sei. Hoje aceito. Assim como dizia Clarice Lispector, “já que sou, o jeito é ser”.
Escrever me trouxe aqui.
Quinta-feira (dia 2/7), antes das 16h, recebo uma ligação. Quando soube que era eu a escolhida para ser a patrona da 42ª Feira do Livro de Caxias do Sul, finalmente a adulta que sou se encontrou com a criança que fui. Uma alegria me invadiu e a compartilho com todas e todos, conhecidos e desconhecidas. Porque escrever é ser um doente de esperanças. É acreditar e convidar o outro a pensar junto outras formas de se viver. É compartilhar a solidão. É saber-se muitas. É dizer para mim mesma: tu me existes. E tu, leitor, me inventas a cada leitura, com a diferença de que lá em outubro, de 2 a 18, poderemos nos conhecer pessoalmente.





