Escuto o vento. Ele insiste em embaralhar os pensamentos. Mas não tenho mais escutado os pássaros. Talvez por causa do vento, penso. Pensamento ingênuo. Sou assim, às vezes. Depois me deparo com as notícias sobre o antropoceno, leio livros, artigos, fico pessimista. Quem não? É só olhar o mundo ao redor. Na verdade, as pessoas. O mundo, ou o que ainda resta dele, é lindo. E embora o uso de adjetivos deixe a frase vazia, coisa que sempre digo aos meus alunos, o utilizo como expressão quase naïve de reconhecimento do quanto ainda preciso me decolonizar. Divagações linguísticas para uma manhã de escritas, pontuo. Mas já não me ressinto de usar minha própria subjetividade para escrever, uma vez que meus atravessamentos encarnam um campo sensorial que sofre impactos a partir da experiência de viver neste mundo.
Sei que meus leitores me gostam mais poética, mas confesso que manter a poesia tem sido um desafio. Tem uma imagem que me acompanha há muitas décadas: a fotografia de Yves Klein, Salto no Vazio, de 1960. A imagem é a de um homem que salta da janela de seu apartamento em direção ao asfalto. No momento em que a foto é feita, ele está congelado no ar, pleno feito um pássaro, só que sem asas, minutos antes de se esborrachar no chão. Já escrevi, academicamente, muito sobre ela e mesmo assim, cada vez que a observo, coisas novas me surgem. Talvez porque sejamos um pouco como ele, será? Olha eu sendo ingênua outra vez. Um sonhador ou um sem noção? Seria ele um provocador das normas ou um sujeito sem neurônios, como tantos, que saltam metaforicamente em crenças duvidosas, amassando a cara na rua da vergonha alheia, mas como não pensam, nem conseguem compreender o que aconteceu? A arte nos retira da alienação, coisa que a maioria dos políticos quer de nós. Afinal, pensar para quê? A maioria de nós é uma espécie de sujeito colonial moderno, em outras palavras, um zumbi que usa a maior parte de sua energia pulsional para buscar e reproduzir uma identidade normativa, violenta, dissociada, opaca e cheia de repetições. Fazer a manutenção disso é bom para quem governa.
Eu me ressinto mesmo é pela ausência dos pássaros. Há tempos percebo que o canto tem diminuído, assim como os vagalumes que desapareceram. Acho estranho isso, você não? Me pergunto qual seria o som do fim do mundo, talvez o som do mundo quando acabar seja o silenciamento dos sons, das artes, dos pássaros, da poesia. Mas isso já acontece lentamente, sem nos darmos conta. O que não para de crescer são as larvas no esterco.




