Vivemos tempos estranhos. Talvez já sejam de longa data, mas só podemos falar do momento em que vivemos. Como se duas histórias corressem lado a lado. Uma nos chega pela enxurrada de informações de todos os tipos de todos os lados do mundo. Digo lados e não cantos porque a terra não é plana, embora alguns sejam meio quadrados no pensamento. E neste contexto parece que seguimos a flecha do tempo, numa velocidade avassaladora. Também é um tempo confuso em que as pessoas defendem bandeiras indefensáveis, como não fazer vacina, por exemplo. E, contra qualquer argumento que possa surgir disso, há fatos. Fatos reais e não fake news sobre o assunto. Mas é só um exemplo, pois se pensarmos um pouco podemos citar inúmeros outros. Mas para isso é preciso aprender a pensar. O interessante é nos darmos conta de que pensar e ter clareza, ou pelo menos tentar, não significa tranquilidade. Pelo contrário. Estamos vivenciando uma crise climática, uma avalanche de feminicídios, um desrespeito contínuo contra o diferente, os crescentes maus-tratos contra os animais. Convivemos com gente que lucra com a dor do outro. Daí escutamos velhas expressões que ressurgem lá dos tempos idos, de que é preciso aguentar firme, afinal, os tempos são difíceis. Esta passividade me irrita. E talvez lá atrás era isso mesmo, mas hoje estamos vivendo algo próximo do insustentável. Mas esta minha brevíssima crônica angustiada de quem muito lê e estuda, não pretende convencer ninguém de nada. Já fui muito mais militante, hoje leio, escrevo, me angustio, desangustio e sigo.
A minha proposta é uma pequena intervenção no ciclo viciado do nosso pensamento. Intervir é provocar uma brevíssima pausa para tentar transmitir algo que faça o leitor pensar, sentir e talvez imaginar. Imaginar o quê? Formas de viver e sonhar apesar das ruínas sociais, culturais e humanas que habitamos.
Me sinto cansada das ladainhas políticas e logo teremos eleições. Que desespero. Estamos sempre à beira da catástrofe. Por isso, a sensação que muitos têm de se sentirem em suspenso, paralisados pelo sentimento de desmedida entre o que podem e o que é preciso fazer. Outros dizem que já é tarde demais para tentar mudar. E há ainda os que invejo muito, os que sempre acreditam que tudo vai se ajeitar e ficar bem. Sou daquelas que não se submete às evidências da primeira história. Minha analista diz: para quê? E eu respondo: como assim, já me levantando do divã. Se não nos responsabilizarmos pelas nossas escolhas, pensamentos e atitudes, não haverá outra história a ser contada.


