Ao contrário do que diz o verso da bossa nova, sim, é possível ser feliz sozinha. Digo isso, pois tenho pensado sobre o amor. Sobre o que ele significa e como mal o entendemos em nossas relações. O Dia dos Namorados está logo ali. Um dia inventado, diga-se de passagem. O dia 12 de junho não tem nada de romântico, é meramente mercadológico, criado em 1949 para aquecer o comércio. E é uma contradição absurda. Como assim comemorar uma relação, que sabemos, na maioria das vezes, ser repleta de falta de respeito, opressão, traição e violências? Os últimos dados sobre violência de gênero são estarrecedores. Mas esta não é uma crônica contra a sensação deliciosa de sentir um chamego gostoso no pescoço feito pela pessoa amada. É para pensarmos no amor real, que tem diferenças, dificuldades, mas que preserva a autonomia e o respeito.
O amor não faz você se esquecer de você e privilegiar o outro da relação. Não te torna refém de uma relação abusiva. Num casamento saudável há espaço para os dois crescerem. Mas, na sociedade patriarcal na qual vivemos, a mulher só tem sucesso se seguir à risca pelo menos quatro medidas exigentes: ser magra, aparentar ser jovem, suportar o casamento, dentro de uma ideia conservadora e de anulação do feminino e ter filhos. Como se o amor precisasse ser um case de sucesso para mostrar para os outros. Amor não é sacrifício e está longe de ser loteria. Não apostamos em relacionamento de olhos fechados e, se algumas de nós ainda fazem isso, precisam abrir os olhos o quanto antes.
Outra falácia é achar que a mulher pode mudar o homem, que consegue fazer ele amadurecer, se colocando num lugar de falsa onipotência. Não mudamos nem a nós mesmas, que dirá marmanjos calejados de serem quem são. A companheira não é o centro de reabilitação para o homem em crise. E não, o amor não vence tudo. Às vezes é preciso desistir. Cair fora antes que seja tarde demais.
O amor romântico é uma utopia coletiva estimulada há séculos. Uma crueldade do marketing, das instituições, dos grupos sociais e da cultura. Vivemos a saga de um amor inventado que submete o feminino e exige uma abnegação inexistente. Não, não quero destruir a ideia do amor. Adoro um chamego. Mas achar que este assunto é feminino é constatar a marca do gênero. Talvez o nosso desejo de falar sobre o amor comece ainda na percepção de que valemos menos do que os homens e que não importa o quanto sejamos boas, pois aos olhos do patriarcado nunca seremos boas o suficiente. Por isso, antes só do que mal acompanhada. E se o outro não consegue refletir junto sobre isso, não há chamego que resista.






