Li, não sei onde e deve ser mentira e não fui conferir, o que já me envergonha, mas escrevo mesmo assim, que alguém, em algum lugar, verdade ou ficção, levou 200 dias para chegar na Lua. A informação, se falsa ou verdadeira, aqui, neste pedaço pequeno do jornal, lido semanalmente, por alguns poucos mas queridos leitores, pouco importa.
O fato é que ao ler a informação uma onda poética me tomou e se queria escrever sobre a crise na cultura ou sobre as fatídicas podas de árvores em nossa cidade, pela enésima vez e na certeza de que ninguém mais aguenta estes assuntos, embora eles continuem a acontecer e, nós, míseros escritores idealistas insistimos em falar, desapareceu. Fui tomada de relance por uma espécie de pausa lúdica, que me fez sorrir. Pensem, 200 dias até pousar naquela face prateada, que toda vez que olho, vejo um coelho.
Fiquei no espaço entre a Terra e a Lua, meu astro regente, coisa bem estranha e sem sentido isso, uma vez que a Lua nem planeta é, que dirá astro. Mas enfim, fico com a parte bonita da coisa, e me esforço para não pensar naquelas pessoas estranhas que acham que a Lua tem uma base na face escura para pouso de extraterrestres. Dos ETs até gosto, mas cá entre nós, tem cada maluco. Então, fico com a parte poética, até porque está tão difícil ver beleza nos últimos tempos e digo isso e já me ressinto com os olhares e narizes torcidos de todos aqueles que acordam e dormem agradecendo tudo, presos numa ilusão da qual invejo. E, gratidão pela compreensão.
200 dias até a Lua é um sonho e, por aqui, nós, reles mortais, debatendo a escala 6X1. Imagine, 365X200, quem não? Mas só os políticos podem, justo eles que não entendem nada, nem de Lua, nem de poesia e muito menos de trabalho. Fico feliz em pensar que eles não entendem nada, bando de gente sem noção, o que seria uma pequena vingança desta que vos escreve. Mas logo me entristeço, a interpretação de texto está cada vez mais distante de todos, sejam eles políticos ou eleitores. Vingança de intelectual é sempre minúscula, quase não tem com quem compartilhar.
Agora, se fosse refrão de música de mau gosto, estaria na boca de meio mundo, porque nunca vi povo para gostar tanto de coisa ruim. Sim, confesso, ando meio rabugenta e tenho me esforçado para não me repetir, mas seja lá a idade ou o fato de ler livros aos montes, ando assim, criticando tudo, me desculpem, por isso, volto para a informação lá de cima, dos 200 dias para chegar na Lua e me comovo com a ideia de que se todos pudessem ter mais acesso à poesia, não salvaríamos o mundo, mas teríamos pessoas mais decentes.



