“O horror, o horror”, expressão que tenho dito nos últimos tempos e que é de Joseph Conrad — na verdade, de seu personagem Kurtz diante da crueldade humana —, reflete um pouco o que temos sentido. Não sei se diante da tragédia haveria outra forma de demonstrar a angústia que não o horror. Desde a pandemia, quando ingenuamente, parte de nós sonhou que as pessoas mudariam, as coisas parecem piores. É que o horror não vem sozinho. Com ele, o embrutecimento humano, expresso em todas as mais variadas formas de violência. Violência contra os animais, crianças, mulheres, negros, meio ambiente, idosos e poderíamos fazer uma lista interminável. Mas o que aconteceu para chegarmos a este ponto?
É como se o real estivesse convulsionando. Parece que estamos cada vez mais com dificuldades de nos relacionarmos uns com os outros. É claro que lembro de Freud e de que todos nascemos maus. Sim, nenhum ser humano nasce amando o outro. A civilidade e o amor são uma conquista que se dá ao longo da vida. É necessário que haja adultos aptos para fazer a mediação com o mundo e os afetos para que as crianças desenvolvam a capacidade de um dia serem pessoas éticas, conscientes de seus deveres e direitos. Mas o que temos presenciado é a destruição em massa das relações, ataques constantes ao diferente e um desordenamento violento e mortífero.
Assim, o horror deixa um rastro para trás que altera nossa paisagem psíquica. Há uma angústia nauseante que nos toma, se não a todos, pelo menos alguns. E se sentimos o que sentimos é porque sabemos que estamos diante de um solo ruindo sob nossos pés. Vivemos tempos estranhos. Se por um lado estamos outra vez indo em direção à Lua, pouco mais de 50 anos depois, as pessoas ainda ultrapassam pela direita, cruzam sinal vermelho e acham que a mulher tem que ser submissa.
Essa crônica pode parecer pessimista. Numa leitura rápida até aqui, senti isso. Lamento. Talvez eu, de fato, tenha ficado mais pessimista com o passar dos anos. Ou porque esteja envelhecendo e parece que um certo cansaço vai surgindo. É que o que está sendo tirado de nós, por nós mesmos, é a capacidade de aceitar e conviver com o outro, mesmo que ele seja outro. Daí a coisa do embrutecimento. É claro que se soma a isso a voz oportunista e frouxa dos nossos representantes políticos. E para quem estudou um pouco, sabemos que se paga caro demais qualquer frouxidão política que prega o mínimo de senso ético.
Por outro lado, não queria terminar essa crônica assim, tão amarga. Mas infelizmente, paro por aqui, chego aos 2.600 caracteres que me são permitidos e preciso parar.



