Escrevo sobre o futuro ainda no presente, porque parte de mim produz narrativas de antecipação. Não somente eu; muitas das pessoas que conheço — e ouso dizer, as que desconheço — fazem o mesmo. Talvez o nome da coisa seja outro: ansiedade ou tentativa de controle. Quem não? Seria tão mais tranquilo se pudéssemos antecipar o que vai acontecer. Ilusão. Podemos até fazer apostas. Perdemos sempre. Tentar saber antes produz em nós um gesto único, o de num exercício ficcional, imaginarmos o que ainda não existe. Uma espécie de imaginação especulativa. Especulamos o que não tem nem nome, nem forma, nem fato. O futuro é mesmo uma coisa desconhecida. Não tem cheiro, cor ou hora. Mas observando o presente podemos imaginar o que poderia vir a acontecer. Na lógica de que a vida produz uma certa continuidade, nos iludimos na premissa de que o amanhã repete o hoje. De certa forma, sim. E, de certa forma, não. Talvez parte de nós siga a toada já conhecida, guardando uma certa sensação de familiaridade, porque sim, há coisas que se repetem. E parte de nós não sabe nada mesmo. Não tem nem noção. Não importa o nome que possamos dar para isso; o fato é que é assim, e o máximo que podemos fazer é aprender a lidar com a coisa quando ela acontece.
Fico me perguntando sobre minha profissão e a ideia de que se tem de que ao narrar o sujeito se alivia. Tenho para mim que narrar-se é conseguir ficar com o problema. Não se vai a uma análise para se livrar do problema. É o contrário. Conseguir suportar a coisa sobre os ombros é exatamente o necessário para descobrir formas de se implicar. Imaginar saídas. Criar outras formas de habitar a vida. Descobrir que somos apenas do tamanho do possível. Mas isso já é uma antecipação. É como fazer uma oficina de escrita. As pessoas chegam para mim e dizem: quero escrever poemas, mas saem escrevendo crônicas ou contos. Porque não somos nós que escolhemos o que queremos escrever, é o contrário. A escrita nos diz o que somos. E às vezes é bem difícil descobrir que não somos aquilo que queríamos ser. Mais difícil ainda é descobrir que somos o que nunca imaginamos. Mas isso também é antecipar. Ou seja, é preciso que se vivencie a experiência do instante. Sem isso andamos feito bêbados sem conseguir achar a chave para abrir o portão de casa, sem lembrar que moramos num apartamento.
Tudo isto para dizer que escrevo diretamente do passado. A crônica faz isso, já nasce velha. Hoje é dia 21 e eu ainda nem cheguei de volta ao país. Andei uns dias fora. Enquanto escrevo é domingo, início do mês e cometo o mesmo erro que todos, antecipo o “inantecipável”.

